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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A LAGARTA CICINHA - infantil - Ademir Esteves

A  Lagarta CICINHA – fábula do jardim encantado
Musical infanto-juvenil de    Ademir Esteves

Personagens:

Cicinha                                          (Lagarta muito jovem)

PRIMEIRA PARTE
Carcarânio                                               (Carcará velho e doente)
Urubúcula                                                (Urubu adolescente vegetariano, que adora rúcula)
Cleópata                                        (Uma pata que sonha em ser Cleópatra)
Mandacaru                                  (Um cacto que está secando)
Zé Jerico                                        (Jumento retirante)

SEGUNDA PARTE
Margarida                                                (A líder do canteiro de margaridas)
Espantalhões                              (Espantalho de 4 pernas, 4 braços e 2 cabeças)
Bico Fino                                      (Canário amarelo, muito elegante)
Jardineiro                                     (Homem sábio)
Dona Neura                                (Mulher do Jardineiro, agitada e impaciente)
Irritinha                                        (Filha mimada do Jardineiro)
Feijó e
Jiló                                                    (Irmãos gêmeos da família dos sapos)

Liberdade                             (Fada dos Jardins – é um personagem que veste  um grande manto azul e tem muitos braços e 5 cabeças – cada cabeça representa um dos sentidos)




Primeira Parte
CAATINGA.  CARCARÂNIO ESTÁ SOBRE UMA PEDRA AO LADO DO MANDACARU.  DETRÁS DO MANDACARU APARECE APENAS A CAUDA DA LAGARTA CICINHA. NA FRENTE DA CAATINGA ESTÃO CLEÓPATA E URUBÚCULA BRINCANDO DE CÉU E INFERNO.

Canção:
URUBÚCULA
Desta distância não se vê o céu
O céu está coberto com nuvem de chuva
A gente sente é o fogo ardendo
No chão queimando o pé do bicho do sertão
TODOS (refrão)
Quanta canção se fez aqui pra terra
Vamos levando a vida como é
De certo um dia choverá bem forte
E o sol não mais nos queimará o pé
CLEÓPATA
Nuvem de chuva só pesa no céu
De lá não cai nenhuma gota, não
Aqui embaixo a gente pula as casas
Da brincadeira céu inferno no sertão
TODOS (refrão)
Oi, mandacaru:
Secou, secou
Da sua flor bebemos toda a água
Mandacaru secou, secou, secou
A gente fica esperando a chuva
Para regar o poço fundo do sertão
(CLEÓPATA E URUBÚCULA CONTINUAM BRINCANDO)
CARCARÂNIO
Olhe que esses meninos têm muita vitalidade, Mandacaru. Brincam o dia inteiro e nem se dão conta que a barriga tá roncando.
MANDACARU
Deixe brincar, Carcarânio, que assim as idéias viram verdade e acabam vivendo uma história diferente todos os dias.
CARCARÂNIO
O que me apoquenta é meu neto. O menino é um urubu muito diverso, pois não é? Onde já viu urubu gostar de rúcula e não de carne? Todo santo dia tem que bater asas até a capital buscar verdura na feira.
MANDACARU
Se chovesse podia assentar uma horta.
CARCARÂNIO
Se chovesse, Mandacaru, você não estaria secando e eu não teria envelhecido tão rápido.

URUBÚCULA
Vovô, diga a ela aonde fomos quando aprendi a voar, diga, ela não acredita.
CARCARÂNIO
Mas digo, venha cá Cleópata, quando o Urubúcula aprendeu a voar, eu o levei até o sul, aonde a seca ainda não chegou.
CLEÓPATA
E lá é tudo bonito mesmo? Cheio de planta e gente?
URUBÚCULA
Mas é. Foi lá que comi rúcula pela primeira vez. Que delicia! Nunca mais eu quis comer carne, não senhora. Por isso mudei meu nome de Urubucarnicinha para Urubúcula.
CLEÓPATA
E conheceram a Cleópatra?
CARCARÂNIO
Vê lá, Cleópata, essa rainha egípcia viveu há séculos atrás.
URUBÚCULA
Não te falei?
CLEÓPATA
Quando nasci encontrei uma foto dessa rainha linda no ninho. Eu sempre quis ser como ela.
MANDACARU
Você pode não ser  a Cleópatra, mas é bonita igual que nem.
(OUVE-SE O CHORO DE CICINHA, QUE AOS POUCOS VAI APARECENDO DETRÁS DO MANDACARU)
CLEÓPATA
Olhem, uma minhoca chorona!
URUBÚCULA
Isso não é uma minhoca... (CICINHA CHORA MAIS)
MANDACARU
Oras, mas é uma lagarta...
CARCARÂNIO
Cadê sua mãe, menina?
CICINHA
Não sei. Passei a noite grudada no mandacaru... Minha mãe foi embora e me deixou sozinha.
MANDACARU
As mães das lagartas sempre vão embora.
CLEÓPATA
Não chora, você poderá ser minha serva. Eu sou a rainha Cleópata e você quem é?
CICINHA
Cicinha.
URUBÚCULA
Oi, Cicinha, não fique com tanto medo. Aqui na caatinga somos uma grande família.


CICINHA
Estou com fome!
CARCARÂNIO
Hum, você se acostuma logo com isso.
CLEÓPATA
Eu tenho uns grãos de milho...
MANDACARU
Estou secando, mas ainda tem um pouco de água no meu bolso.
URUBÚCULA
Quer uma folha de rúcula?
CARCARÂNIO
Ou um pedaço de carne crua?
CICINHA
Acho que aceito um pedaço de rúcula. Minha mãe me disse que as larvas devem comer muitas folhas... (experimenta a rúcula) mas essa tem um gosto horrível...
URUBÚCULA
Danou-se! É uma delicia, isso sim! Se não quer sobra mais...
CLEÓPATA
Eu sei, eu sei, nem tudo é gostoso, mas se tá faminta, coma.
MANDACARU
Meninos, ela não está habituada com essas iguarias que ofereceram...
CARCARÂNIO
Assim você não se transforma em borboleta, Cicinha. Precisa encontrar um jardim cheio de flores pra se alimentar.
URUBÚCULA E CLEÓPATA
Jardim!!!
CLEÓPATA
Chiii! Por aqui não tem jardim. Você vai ficar muito magrinha. Como será minha serva se não tiver força pra servir meu jantar???
CICINHA
Jantar? Hum, que fome!
URUBÚCULA
Que mania de grandeza, Pata.
MANDACARU
O que podemos fazer???
CARCARÂNIO
Se é difícil arranjar alimento pra meu neto e pra mim, que dirá pra uma lagarta...
CICINHA
Será que nesse pedaço de mundo só eu tô vivendo assim?
(OS QUATRO VÂO SE REUNINDO PARA DISCUTIR O FUTURO DE CICINHA. CICINHA VEM PARA A FRENTE, DESOLADA E CANTA)





CICINHA
Quando era um ovinho na barriga da mamãe
Eu sonhava com mil flores gotejadas de orvalho
Onde iria morar, onde iria crescer
Num casulo transformar, e depois voar... voar!
Mas nasci em meio à seca, o sol quer me castigar
Como vou sobreviver sem flores pra me guiar?
Acho que o meu destino é subir num galho seco
Esperando uma coruja que venha me buscar
Vou morar na barriga dela, quem sabe até imaginar
Que ainda moro quentinha num ovo, pequenininha
Junto da minha mamãe, me abraçando com carinho
Me alimentando de amor... e de novo, sonhar e voar!

CLEÓPATA
Sabe que eu acho? Acho que você deveria por alegria em sua vida, Cicinha. Tristeza não serve pra nada.
CICINHA
Mas você também sonha.
URUBÚCULA
E como, vive no mundo da lua!
CICINHA
É isso que a faz feliz.
CLEÓPATA
Resolveram todos me aporrinhar, é? E depois, eu não sonho, sou mesmo uma rainha. Até o mandacaru já comprovou.
CARCARÂNIO
Chegamos a uma solução.
CICINHA, CLEÓPATA E URUBÚCULA
Mesmo? Falem... Contem...
MANDACARU
Amanhã, quando o Carcarânio for à cidade buscar verdura na feira, você pega uma carona com ele.
CARCARÂNIO
Eu deixo a Cicinha na barraca das flores... lá terá muito alimento e poderá morar até se transformar em borboleta. Que acham?
CICINHA
Será que não vou me sentir muito sozinha?
URUBÚCULA
De repente encontra uma porção de amigos por lá...

(FALAM TODOS AO MESMO TEMPO NUMA GRANDE ALGAZARRA. A NOITE VEM CHEGANDO).



CANÇÃO:
CHEGOU A NOITE
VENTINHO DA NOITE
ESTRELAS NA NOITE
HORA DE DORMIR
DORMINDO DE NOITE
QUERENDO QUE A NOITE
REFRESQUE A NOITE
PRA GENTE DORMIR

(CHEGA O DIA. URUBÚCULA E CLEÓPATA ESTÃO DORMINDO. MANDACARU TIRA UMA GARRAFINHA DO BOLSO E BEBE UM GOLINHO DE ÁGUA. CICINHA E CARCARÂNIO NÃO ESTÃO EM CENA)

MANDACARU
Minha água está quase no fim. Não chovendo depressa virarei cacto seco.
URUBÚCULA
Bom dia, Mandacaru. Meu avô não voltou da feira?
MANDACARU
Ainda não. Vai ver foi visitar a Cicinha. Já faz alguns dias que ela foi morar na barraca de flores...
CLEÓPATA
Ai, ai, bom dia, senhores! Sonhei com um súdito: ele atravessava a nado o rio Nilo pra me entregar uma coroa de rubis...
CARCARÂNIO
Estou esbaforido... Não consigo mais voar por tantos quilômetros...
MANDACARU
Meu velho Carcarânio demorou muito. Estava preocupado.
URUBÚCULA
E Cicinha como está, vovô?
CLEÓPATA
Já virou borboleta?
CARCARÂNIO
Não sei. Morava num vaso de azaléia. Mas me disseram que o vaso foi vendido para uma araponga.
MANDACARU
Que sina tem essa lagarta, hen? Não tem sossego...
CARCARÂNIO
E o pior não é isso... o pior é que a araponga comprou o vaso pra dar de presente de aniversário para um calango que mora aqui perto. Cicinha voltou pra caatinga...
OS OUTROS
Ah, não!
CLEÓPATA
Vamos procurar a Cicinha, Urubúcula?

URUBÚCULA
Claro, deve estar precisando de nós... (saem)
MANDACARU
Crianças! Bem, bem, nós também tivemos nossos dias de arteiros, não foi mesmo, Carcarânio? Me lembro de você engasgado com uma pedra...
CARCARÂNIO
E foi... Era uma pedra deste tamanho, ou um pouco maiorzinha, ´tava no pedaço de carne que eu tinha encontrado no pasto, o pasto que ficava daquele lado, que hoje não existe mais por que a seca matou...
MANDACARU
E eu espalmando suas costas...
CARCARÂNIO
‘Tava desesperado, sufocando...
MANDACARU
Então eu arranquei um espinho e te cutuquei com ele... Destes um berro e a pedra voou longe... (Riem)
CARCARÂNIO
Bons dias aqueles. Comida pouca, mas tinha. A pedra parada aqui na goela é outra, agora... Hoje tenho que criar dentes de onça pra arrancar fiapos de ossos secos...
(ENTRA ZÉ JERICO, CANTANDO)
Devagar, devagar, Lá lá lá lá lá lá
Não me apresso, se me irrito
Eu posso empacar Sempre em frente
Devagar. I i i i i ih ó!
Retirando do deserto, Pro sul eu vou me mudar...
MANDACARU
Tá se mudando, Zé Jerico?
Me vou... aposentei e vou mudar lá pra cidade grande. Sou um retirante, como dizem.
CARCARÂNIO
Até que você não é tão burro... Trabalhou a vida toda na roça e agora passarà  a velhice na cidade.
E não? Meu primo me arranjou moradia num jardim muito do florido, cercado de água fresca e capim gordura. Vou me fartar...
MANDACARU
Nesse passo não chega antes do ano que vem... (riem)
Chego logo, sim. Vou de caminhão... Arranjei carona...
CARCARÂNIO
Que beleza! Ôxe! Zé Jerico, você poderia levar Cicinha com você...
Mas quem é Cicinha?
MANDACARU
Idéia muito boa, Carcarânio... nós vamos te contar a história da lagarta Cicinha...
CARCARÂNIO
Um belo dia se perdeu da mãe... Mas como uma lagarta viveria numa seca como essa?...
Conte-me, home. Tô que não agüento de curiosidade...
MANDACARU
Os meninos foram buscá-la... É bonitinha que só vendo! Chama-se Cicinha...
(MÚSICA. A LUZ VAI CAINDO).

SEGUNDA PARTE
Num foco Zé Jerico fala, durante a troca de cenário.
Do leite se tira a nata, da nata se faz manteiga, a manteiga vai ao bolo, e o bolo chega na festa, coberto de glacê branco, enfeitado com chocolate, coco ralado ou sorvete. Depois dos parabéns, soprada a velinha com pedido do sonhado e em seguida do quem será que o festejado vai casar, ele dá o primeiro pedaço pra alguém que mais amar.  E eu que do sertão vim, faço verso com tudo que há, acertado e rimado sai que nem folhetim, com começo, meio e fim. Sei falar em duas línguas, a de vocês e a minha, que é de título: Jeriquês. Pra quem não entende português, traduzo pra meu idioma todas letras de uma vez. Fica assim: hi ó, hi ó... ó, ó! (etc) E para finalizar, digo que me afeiçoei à bichinha chamada Lagarta Cicinha, a quem chegando na cidade, deixei num bonito jardim. To indo pro meu cantinho, de burro velho e feliz, terminarei os meus dias fartando-me de capim, inventando poesia de cordel, olhando pra relva, pras flores, pro mundo arredondado e pro céu. (SAI)
JARDINEIRO REGANDO AS FLORES. ENTRAM DONA NEURA E IRRITINHA.
NEURA
Meu marido, agora quero só ver. Irritinha está esperando a sua flor matinal como em todas as manhãs.  Veja, filhinha, seu pai não deixou que eu  colhesse a sua flor hoje.
IRRITINHA
Eu quero uma margarida, papai, senão vou abrir o berreiro!
JARDINEIRO
Quantas vezes eu tenho que dizer que elas ficam mais bonitas plantadas, minha filha?
IRRITINHA
A mamãe me acorda todos os dias com uma flor... eu quero aquela, aquela...
JARDINEIRO
A margarida? Nem pensar. Ela é especial, nunca arrancarei a margarida deste canteiro.


NEURA
Seu pai não me deixou pegar nenhuma... Até me deu uma bronca deste tamanho!
IRRITINHA
Você é mau, papai! Prefere seu jardim...
JARDINEIRO
Querida, cuido do jardim para você brincar no meio das cores da natureza.
IRRITINHA
Mas como foi enfeitar o meu cabelo sem flor?
JARDINEIRO
Oras meu docinho, esse rostinho bonito não precisa de mais nada para...
NEURA
Tá vendo, Irritinha? Seu pai dá mais importância a esse monte de planta do que a você...
JARDINEIRO
Não é verdade, Neura, amo minha filha e...
IRRITINHA
É sim, é sim! Como ir pra escola desse jeito? Sabe de uma coisa? Eu vou quebrar todos os meus brinquedos e amanhã quero tudo novinho...
NEURA
Viu em que estado deixa a menina, Jardineiro meu marido? Você é um pai ausente...  Vem, filhinha, a mamãe compra uma porção de margaridas pra você na floricultura...
IRRITINHA
Acho bom. Nunca mais vou brincar nesse jardim horroroso... se eu fosse você, mamãe, mudava pro apartamento da vovó. Lá é muito melhor.
JARDINEIRO
Irritinha, eu cuido desse jardim pra você, minha filha!
IRRITINHA (fazendo birra e chorando)
Se fosse pra mim eu podia arrancar essas flores todas e me enfeitar. Eu ia causar um monte de inveja naquelas feiosas da escola. E se gostasse de mim, papai, cimentava tudo e botava um playground só meu aqui. (sai berrando)
JARDINEIRO
Neura, você está mimando demais essa menina!
NEURA
Eu, Jardineiro meu marido? Tenho que fazer alguma coisa, não é? Não tenho culpa se Irritinha tem um pai egoísta...
JARDINEIRO
Neura?!...
NEURA
Passe bem... (sai)
JARDINEIRO
Neura vamos conversar... (sai atrás dela)



MARGARIDA
É de cortar o coração!
ESPANTALHÕES (AS CABEÇAS DIVIDEM AS FALAS)
E não é? O Jardineiro não merece ser tratado assim. Ele não merece.
MARGARIDA
É um homem tão bom.
ESPANTALHÕES
É, mas você poderia dar um jeitinho nessa situação, Margarida! Sabe muito bem o que tem de fazer.
MARGARIDA
Espantalhões, não digam essas coisas em voz alta. Rapazes fico arrepiada...

ESPANTALHÕES (CANTAM)
É verdade, minha querida.  Se o jardineiro tivesse
Coragem pra te colher. E desse você de presente
Pra filha dele, Irritinha. Uma família nova ele iria ter
Somente você Margarida. É quem tem esse poder

MARGARIDA
Espantalhões, vocês bem sabem
Que sou a mãe desse jardim
Se eu for parar nas mãos da menina
Ela será toda transformada, sim
Mas se eu salvo a garota de ser chata
Esses canteiros secarão sem mim.

ESPANTALHÕES
É verdade, minha querida.  Se o jardineiro tivesse
Coragem pra te colher. E desse você de presente
Para a filha dele, Irritinha, salvaria a menina
Mas o jardim morreria!

OS TRÊS
Jardim sem flor é deserto
Falta de ar pra respirar
É cimento, piso frio, concreto
Terra coberta onde a água não  entra
E seca o veio de onde iria retornar
A água límpida pra toda sede saciar

BICO FINO
Buenos dias, amiguitos. Triiiiiiiiii! Uno dia mui belo. Triiiiiiiiiiii legal! Mas: ih!!! Que rostitos tristonhos estes...  Alegrastes, alegrastes, su compañero Canário Amarelito acá está... Priiiiiii!
ESPANTALHÕES
Hum, Bico Fino, estamos numa complicação maior que a lua. Maior que o sol! Maior que...


BICO FINO
Se és maior que todo esto, só tiengo a dizer: Triiiiii steza, por quê? Se todo que nos cerca és tão admirável...
MARGARIDA
Admirável pra você que pode voar pra todos os lugares que quiser. Eu não!
ESPANTALHÕES
É  mesmo! E tudo por causa da fada Liberdade.

BICO FINO
O que? Una fadita tão buena como ela? Nem parece fadita!
ESPANTALHÕES
Vai ver que não é mesmo. Vai ver que não é!
MARGARIDA
Assim não gosto, na na ni na não! A Fada Liberdade tem uma grande ciência sobre as coisas. Se ela encantou minhas sementes com o atrativo de me fazer mãe do jardim, então ela sabia o que estava arranjando. Portanto, não falem mal dela.
BICO FINO
Mas triiiiiiiiiiiiii que não posso trinar com esta curiosidà: Espantalhones e Margaridita, Bueno seria se me contassem las artimanhas que desconheço... Qual é a buena? Qual é a triiiiiiiiibuena?
ESPANTALHÕES
Qual é a boa? A boa é que se a margarida algum dia for arrancada do pé, toda a natureza ao redor se perderá. Tudo se transformará numa paisagem seca e triste. Mais triste que deserto. Mas em compensação quem arrancá-la se tornará uma pessoa boa para sempre.
MARGARIDA
O Jardineiro ouviu contar esta história quando era menino. E por precaução cuida de mim com muito amor.
BICO FINO
Ah! Então esto és una lenda, una crendice que o tempo firmou...
FEIJÓ E JILÓ (entram coaxando e cantam)
Croá, snoff, berg...
Lenda não é, lenda não é
Os sapos sabem se a margarida for embora
Então: croá, snoff, berg
O tronco vira tora.
A grama seca, a terra racha, minhoca fica dura que nem pedra
Os sapos sabem se a margarida for embora
Então: ber, snoff, croá
A rosa encolhe, o cravo trava, e passarinho que voava nem galho mais terá
Sem ninho, sem sementes, perde asas de voar.




BICO FINO
Triiii... estoy contento... pero non mucho, agora... Se a história for mesmo verdad, corrrrrrrrrrremos um grande periguito.
FEIJÓ
Ué, achei que você era canário... não periquito!
JILÓ
Para de ser tonto, Feijó? Bico Fino disse perigo.
FEIJÓ
Ah, então ta, Jiló. É essa mania do Bico em falar tudo no diminutivo, me dá um nó no cérebro... croach!
MARGARIDA
Mas qual perigo pode haver, Bico Fino?
BICO FINO
Yo voy dizer: Espantalhões, fiquem atentos, siempre... alguém, por maldade ou vaidade pode querer arrancar a Margaridita trii bonita  no meio da noite...
ESPANTALHÕES
Estamos sempre em guarda, quando uma cabeça dorme a  outra vigia. Nada vai acontecer neste jardim que não passe pelos nossos olhos.
BICO FINO
Trrrri Bueno, tri Bueno... me voy a bater asas por aí... adiós, niños, hasta La vista! (sai)
ESPANTALHÕES
Hum, como se não fossemos bons espantalhos de jardim!
MARGARIDA
De certa forma o Bico Fino pode ter razão...
JILÓ
Pode não, ele tem razão... Imagina se alguém colhe a nossa rainha?
FEIJÓ
Imagina se alguém colhe a nossa rainha?
ESPANTALHÕES
Nem passando por nossas cabeças, Jiló.
FEIJÓ
Nem passando pelas cabeças, Jiló.
MARGARIDA
Mas, pensem bem, tudo na vida tem dois lados.
JILÓ
Como dois lados?
FEIJÓ
Dois lados, oras... o de dentro e o de fora...
ESPANTALHÕES
O de frente e o de trás...
JILÓ
O de cima e o de baixo...



MARGARIDA
Sabem, viver necessita de entendimento sobre as coisas... é claro que se eu for embora muitos vão perder: a terra, as plantas, as cores desse jardim tão bem cuidado... Mas em compensação alguém terá recebido o benefício de ser uma pessoa melhor...
JILÓ
Tudo bem! Acontece que de repente uma pessoa que já é boa pode colher você...
FEIJÓ
De repente a pessoa boa pode arrancar você, e aí?
MARGARIDA
Acho pouco provável, Feijó... a fada  Liberdade, sabe, a fada dos jardins,  é muito esperta... O encanto que ela me colocou só os sábios podem entender.
CICINHA (acordando de trás da pedra)
Bom dia, queridos!
TODOS
Bom dia, Cicinha!
ESPANTALHÕES
Perdeu a hora hoje?
CICINHA
Acho que sim... Fui dormir com a barriguinha bem forradinha, ontem.
MARGARIDA
Falta bem pouco pra você se tornar um casulo, Cicinha. Depois é voar, voar.
JILÓ
Nessa fase tem que comer bastante...
FEIJÓ
Comer muito... né? Croch, falando em comer... Olhe aquela mosquinha bem perto do lago, Jiló!
JILÓ
Onde tem uma... tem várias. Borá lá, Feijó que to com fome de sapo!

TODOS RIEM E OS SAPOS SAEM PULANDO LÁ PROS LADOS DO LAGO.

ESPANTALHÕES
Tudo em paz até o momento.
CICINHA
Minha mãe iria ficar orgulhosa de mim. Sobrevivi viajando no lombo de um jerico.
MARGARIDA
Aquele burro velho tem um coração de ouro!
CICINHA
Coração de Margarida!
ESPANTALHÕES
Ahhhhhhhhhh! Que meigo!
MARGARIDA
Como você é fofa, Cicinha. Os corações das flores são mesmo delicados...

CICINHA
Quando eu for uma borboleta quero ser como vocês. Amiga dos amigos, sempre ajudando uns aos outros. Só recebi coisas boas da vida. Até quando não havia nada pra comer e eu achava que não iria conseguir continuar, encontrei plantas e animais maravilhosos que me deram força, muita força. (canta)
NATUREZA
TEM NO NOME A BELEZA
DE SER MAIS
DE TER COMO CONSEGUIR
CONTINUAR
NATUREZA ESTÁ NO CAMPO
OU NA RUA OU NA CAIS
NO SERRADO, NAS RAIZES OU NO AR
NATUREZA QUE SOU EU
QUE É VOCÊ E É TAMBÉM
A LUZ DO DIA
ILUMINANDO A PAZ!

TODOS (CANTAM)
NATUREZA ESTÁ NO CAMPO
OU NA RUA OU NA CAIS
NO SERRADO, NAS RAIZES OU NO AR
NATUREZA QUE SOU EU
QUE É VOCÊ E É TAMBÉM
A LUZ DO DIA
ILUMINANDO A PAZ!
NATUREZA
TEM NO NOME A BELEZA
DE SER MAIS
DE TER COMO CONSEGUIR
CONTINUAR

(SOM DE GRILOS. ANOITECEU. NO AZUL DA NOITE VEMOS UMA FIGURA COBERTA POR UMA CAPA COM CAPUZ QUE SE APROXIMA DO JARDIM. O SOM DA MÚSICA  ANTERIOR TORNOU-SE MAIS ALTA E COM CLIMA DE SUSPENSE. VEMOS UMA MOVIMENTAÇÃO EM CENA, NA PENUMBRA. E DE REPENTE SILÊNCIO. AMANHECE. CICINHA ESTÁ DEITADA SOBRE A PEDRA GRANDE. NÃO HÁ MAIS NADA NO JARDIM. TUDO SECOU. A MARGARIDA DESAPARECEU. APENAS O TRONCO DOS ESPANTALHÕES ESTÁ NO LUGAR DE SEMPRE, SEM VIDA. NADA TEM VIDA. A NÃO SER CICINHA QUE PARECE FRACA E TENTA DESPERTAR. MAS VOLTA A DORMIR SEM FORÇAS)

JARDINEIRO ENTRA ACOMPANHADO DE DONA NEURA


JARDINEIRO
Venha ver, Neura... Veja o que fizeram com o nosso jardim.
NEURA
Ah, que pena! Quem poderia ter feito isso?

JARDINEIRO
Não tenho idéia... Alguém muito mau. Muito   mau  (triste, tenta esconder o choro de Neura) Tantos anos me dedicando ao jardim... só pensava na alegria de nossa filha crescendo em meio... (se cala)
NEURA (percebendo a tristeza do marido)
Meu querido Jardineiro...
JARDINEIRO
É como ver um amor morrendo, Neura. Fiz tudo que pude para manter viva a esperança do nosso mundo. Mas eu sou um simples jardineiro... Existem poucos jardineiros que ainda acreditam que a natureza possa ser salva, sabia?
NEURA (ABRAÇA-O)
Venha cá, meu marido... Só agora percebo o que você quis dizer esses anos todos. Eu, você, todas as pessoas e bichos e plantas e       água... Tudo é natureza, não é?
CICINHA (NUM SUSSURO)
Alguém... me ajude... não posso me mexer... estou com sede... o sol, o sol é um fogo gigante...
JARDINEIRO
Vamos embora, Neura. Nunca mais quero voltar neste lugar.
NEURA
Espere, marido...
CICINHA
Ninguém está me ouvindo... por favor... me ajudem...
IRRITINHA (ENTRA E  FICA OLHANDO O PAI DE LONGE)
NEURA
Ainda podemos salvar alguma coisa? Uma plantinha, uma graminha que seja?
JARDINEIRO
Acha mesmo que eu teria ânimo pra recomeçar? Esta terra, sem a margarida, é terra sem vida. Agora é jogar concreto em cima disso tudo e esquecer que houve um jardim aqui. Como em todos os lugares... Não é sempre assim?
NEURA
Deve haver uma maneira...
JARDINEIRO
Quem arrancou a margarida não tem coração...
IRRITINHA
Pai...
CICINHA
Não enxergo mais nada... pra onde foram os ruídos do jardim? Margarida? Margarida... Aonde   você está?

IRRITINHA
Não importa agora quem roubou a sua flor... mamãe e eu vamos ajudá-lo a reconstruir o jardim...
JARDINEIRO
Tá falando seriamente, Irritinha? Você que sempre esperneou, fez birra, quebrou brinquedos porque eu não lhe dava a margarida de presente...
NEURA
É minha filha... você está bem? Cadê os gritos, o choro chato de todas as manhãs?
IRRITINHA
Eu tive um sonho...

MÚSICA INCIDENTAL

IRRITINHA
Sonhei que era  noite, estava vestida numa capa enorme e vim arrancar a margarida...

CICINHA DESCEU DA PEDRA, LENTAMENTE, COMO SE AGONIZASSE E PARA NO LUGAR ONDE A MARGARIDA ESTIVERA.

IRRITINHA
No meu sonho, depois de tirar a flor da terra, tudo começou a secar, a fonte não gotejava mais, as arvores murcharam até virarem serragem... Fiquei com medo porque eu comecei a me sentir mal... Achei que fosse desaparecer, também.
NEURA
Isso foi mesmo um sonho?
IRRITINHA
Não sei, mãe. Quando acordei, senti uma vontade muito grande de dizer que... que vocês são o que mais amo nesse  mundo todo. Senti amor. Quando abri a mão... ela estava assim... (abre a mão forrada com sementes)

JARDINEIRO
São sementes de margarida...


OS TRÊS SE ABRAÇAM. A MÚSICA SOBE. DEPOIS ELES DEPOSITAM AS SEMENTES SOBRE O CORPO DE CICINHA E COBREM COM UM TECIDO COR DE TERRA.

A FADA LIBERDADE, UM BONECO ENORME, APARECE CANTANDO ATÉ CHEGAR À FRENTE E COBRIR TODA A CENA.




FADA (CANTA)

O OLFATO DA FLOR QUE RENASCE
O TATO DE TOCAR A FLOR
VISÃO PARA VER OUTRA FLOR
BROTANDO DO ENCANTAMENTO
E NO PALADAR  SINTO O GOSTO
DE POEMA QUE SE COME
COMO QUEM SE ALIMENTA DE AMOR
LIBERDADE, LIBERDADE
ABRE AS ASAS SOBRE NÓS

FADA
Nem tudo nessa vida é alegria, a gente sabe disso, não é? A lagarta Cicinha não conseguiu se transformar na borboleta que queria, mesmo fazendo um longo percurso vindo no lombo do jumento, enfrentando frio e medo, calor e medo, fome e medo... mas por um bom tempo ela foi feliz. E acho que ainda é. Porque quando a lagarta Cicinha deitou e dormiu pra sempre juntinho com as sementes da sua amiga Margarida, Cicinha voou. Sem asas, mas com a esperança de ver, lá do céu, o mundo inteiro voltando a se encher de vida.
Talvez esteja feliz, agora...

A FADA DEITA-SE E ATRÁS DELA REAPARECE O JARDIM. O JARDINEIRO, DONA NEURA, IRRITINHA CUIDANDO DE TODOS OS DETALHES.
A MÚSICA SOBE. A LUZ VAI CAINDO E ABRINDO EM FOCO BEM NO ALTO, ONDE APARECE O ROSTO DE CICINHA BANHADO EM LÁGRIMA E SORRISO.


FIM
31 DE MAIO DE 2010.

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