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quarta-feira, 16 de maio de 2012

ESTRÉIA do espetáculo "ROSTO DESTILADO" texto e direção de Ademir Esteves com atuação de Matheus Gherardi. Dias 15 e 16 de Junho às 21h00 no Teatro SantaRosa.

ROSTO DESTILADO
O alcoolismo pode levar a morte.

A dor de quem pede socorro em silêncio, sozinho dentro de um quarto repleto de fantasmas, criados para abrandar a solidão é o chute de partida de Rosto Destilado . Antonio (interpretado pelo ator Matheus Gherardi), representa a busca de soluções para o alcoolismo e coloca ao espectador a maioria das fases vividas pelo alcoolista .
O espetáculo traz a discussão e claridade ao tema, tentando estabelecer a importância de observar os sintomas, o desenvolvimento e as dificuldades advindas do alcoolismo .
Ademir Esteves (autor e diretor), procurou em fatos reais e pesquisas realizadas por Edilaine Silva Gherardi Donato, a maneira mais direta de trabalhar o assunto em cena . O espetáculo é um grande depoimento e espera servir como elemento de apoio aos que sofrem com a doença e, certamente, prevenir a continuidade dela .

domingo, 13 de maio de 2012

Ao meu pai, que nos deixa hoje para renascer em Deus.





Sim. Vou falar de amor e de quanto o tempo pode fazer mergulhar o esquecimento e emergir o perdão .
Lembro-me de minha infância . Nunca foi fácil a vida em minha família; mas tenho memórias de lindas e felizes lembranças. De quando minha mãe (Dona Nêga como a chamam desde criança), contando os trocados comprava um doce de leite em pedaço, quase todas as tardes pra mim e minha irmã. Ficávamos sentados na soleira da porta da sala e ela nos contava histórias dos nossos antepassados. Esperávamos meu pai chegar do trabalho .
À noite, no sofá, assistindo televisão em branco e preto, Adriana minha irmã, ainda solfejando suas primeiras palavras dizia: ‘tô com uma sono! E a gente ria . Depois vieram a escola, o crescimento e as tristezas quando meu pai começou a beber. Brigas, choros, desesperos... Desmoronamento de toda uma estrutura . Acho que foi nessa época que eu comecei a ficar arredio e fugir de tudo que me causava medo . E continuei fugindo muito tempo , pra chorar longe de todo mundo .
Não! Não é auto-piedade.
Eu sabia que todos sofriam e tentavam ser fortes e, cada um, a seu modo expurgava as lágrimas como e onde podia . Depois que meus pais se separaram pela última e definitiva vez, fiquei sem ver meu pai uns 20 anos. O tempo passou e ele teve que voltar a morar comigo e minha mãe. Novamente não foi nada confortável conviver com as amarguras e as mágoas de um de outro . Sempre tentando apaziguar. Fizemos o que tinha que ser feito, provavelmente de maneira torta e muitas vezes desacertadas, mas tentando sempre, tentando .
Nesses últimos anos, eu quis muito que tudo em nossas vidas desse certo (ao modo material das coisas, talvez) e muitos erros cometi, na eminência de marcar a alternativa correta .
Hoje, quando ouvi minha mãe dizendo que perdoava meu pai, senti que ela mesma se perdoava . Todos os meus anos, toda a minha história vieram passear por minha alma .
Sim. O amor é algo que por alguma razão às vezes se esconde dentro de algum espaço em nós.
Deus, mais um espírito que conviveu aqui comigo está indo para Ti. Por favor, deixe que minhas preces chegue aos que estão Contigo e aos que ainda estão aqui comigo, sejam parentes, amigos, próximos, distantes e que eles possam saber que meu amor é sincero . Que eu seja perdoado por quaisquer sofrimentos tenha causado .
Ao meu pai, Adhemar Esteves, dedico nossa história, nosso amor e a esperança de que seja luz intensa a paz na continuação de sua aprendizagem.

Seu filho na Terra, Ademir.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

VAI COMEÇAR

NÃO CUSTA MUITO E VOCÊ FICARÁ EM CARTAZ EXPERIMENTANDO O FAZER TEATRAL.
INSTITUTO A COISA COM INSCRIÇÕES ABERTAS PARA TURMAS NOVAS PARA O CURSO/MONTAGEM
www.espacoacoisa.com.br
Desdobrando a Cena

A real intenção desse projeto é expandir a formação de núcleos estruturados de pesquisas, promovendo uma junção entre os artistas na carpintaria do fazer teatral, desde a escolha de textos e pesquisas elaboradas para a construção de espetáculo, utilizando linguagens dos diversos segmentos teatrais . Apresentação contínua dos resultados finais, no próprio Espaço a Coisa e ou alternativos ou não, para público em geral, mantendo a formação de platéias e novos níveis de reconhecimento cultural. Consolidar uma política de interesses e solidariedade entre as equipes envolvidas, monitorando através de jogos e exercícios a construção e metas para uma agenda cultural pertinente e continuada .
às quartas-feiras
Opções para Manhã, Tarde ou Noite

Espaço A Coisa – Rua Amador Bueno, 1300, Centro.
Ribeirão Preto - SP - FONE: 16 3877 7211
de segunda a sexta das 14h as 18h.

FACILITADOR:ADEMIR ESTEVES

LOGEMENT

Logement

Roteiro para curta metragem de Ademir Esteves.

Escrito em 24 de março de 2012, num banco à sombra de uma árvore, na praça do Morro de São Bento, Ribeirão Preto SP.

Personagens:

Doca - quase 50 anos; ávida por ações o tempo todo, cozinha, lê, limpa, senta, levanta.

Marina - a mais nova dos irmãos, por volta de 35 anos; fumante inveterada sem necessariamente levar o cigarro à boca todas às vezes que acende um. Tem um ar entre misterioso e sorrisos repentinos.

Noêmia - por volta de 52 anos; ex professora, impecavelmente vestida e maquiada. Deve possuir algum tique nervoso de quem sempre precisou chamar a atenção de alunos barulhentos.

Margarida - homem de 45 anos; vestido como mulher e tratado como mulher, pelas outras. Parece ter um bom humor, meio ferino e tem a postura de quem está livre para agir. Tem uma coleção de perucas de tamanhos e cores diferentes.

Ela - elemento apenas citado, mas sempre muito presente na atmosfera da casa.

locações:

1 - Cozinha sombria com apetrechos de cozinha e mesa sempre posta  para refeições. Janela cerrada por cortina pesada e uma porta de saída, também fechada. Uma passagem sem porta para o interior da casa, por onde entram as personagens.

2 - Pedaço de rua frente a casa das irmãs alongando para a fachada nada suntuosa, com muros altos, portão de ferro chapado, pequena escada com acesso à varanda e a porta de entrada.

3 - Sala da casa, não muito espaçosa. Os móveis estarão afastados para dar lugar ao bailado solicitado no roteiro na Cena 3.

CENA 1

MÚSICA PARA TODA A PRIMEIRA CENA.

AÇÃO: I

ÂNGULO ALTO, desfocando para objetos na cozinha. doca, de penhoir, pondo a mesa do café da manhã. em dado momento doca abre um pequeno espaço na cortina e tenta ver o que há lá fora. imediatamente cerra a cortina. inspira. pragueja algo em tom inaudível. suspira e retorna aos afazeres.

AÇÃO ii - CONTINUIDADE

ENTRA MARINA, AINDA DE CAMISOLA, SENTA-SE À MESA E ACENDE UM CIGARRO. SERVE-SE DE CAFÉ PURO, ADICIONA AÇÚCAR MASCAVO E  DURANTE UM TEMPO MEXE O CAFÉ COM A COLHER, E O CIGARRO ESQUECIDO ENTRE OS DEDOS. LEVANTA OS OLHOS PARA DOCA E ESBOÇA UM SORRISO.

ação  III - continuidade

CORTA PARA NOÊMIA SURGINDO VESTIDA SOBRIAMENTE E MAQUIADA COM UM CERTO EXAGERO. SENTA-SE APÓS APANHAR UM GUARDANAPO SOBRE UM APARADOR. SERVE-SE DE CAFÉ, LEITE, ETC.

AÇÃO  IV - CONTINUIDADE

DESFOCA PARA A ENTRADA DE MARGARIDA , VESTIDA COM ROUPAS ESCURAS E ESTAMPADAS. PERUCA VERMELHA, PRESA NUM RABO DESAJUSTADO E O ROSTO ESTÁ LIMPO, DEIXANDO O HOMEM CLARAMENTE exposto.ANTES DE SENTAR-SE A MÚSICA ACABA.

FIM DA MÚSICA.

CENA 2


MARGARIDA

Bom dia para quem seja de bom dia!    (senta-se)

DOCA  (SENTANDO-SE PARA O CAFÉ, ABRE UM PASQUIM AMARELECIDO)

CLOSE NA MANCHETE DO PASQUIM :

ELDORADO DO CARAJÁS –  MEMORIAL DE UM MASSACRE

17 de abril de 1996

DOCA

(LENDO) “Se nos calarmos, as pedras falarão”

MARINA

Se levarmos ao menos um café, será que Ela toma?

NOÊMIA

Fez um som horrível a noite toda. Pretendo transferir-me de quarto hoje mesmo.

DOCA

"Todos os policiais militares que participaram do massacre foram julgados e absolvidos. O Tribunal do Júri de Belém decidiu condenar apenas dois comandantes: o coronel Mário Colares Pantoja e o capitão Raimundo Lameira.O Massacre de Eldorado do Carajás e a impunidade dos mandantes e executor..." (interrompe-se) E quem dormirá ao lado dela?

MARGARIDA (MOLHA O PÃO NO CAFÉ)

Volto sempre tarde da noite da  rua. (OLHARES) Vocês sabem! Passo pelo quarto, dou uma olhada, vejo que ainda está viva e vou para o meu canto. (OLHARES) É o que posso fazer.

MARINA (acende outro cigarro)

Quem sabe um leite Ela consiga engolir? Um leite morno, sem açúcar...

DOCA (concentrada no jornal)

Irrelevantes essas inciativas isoladas dos nossos políticos...Há coisas que não chegam até nós.

MARINA

Tudo nos afeta, Doca. (ALTERA-SE) E você sabe muito bem quanto tempo faz que...

MARGARIDA (EM CIMA)

A falta de geléia nesta mesa é um exemplo de desatenção. (LENTAMENTE) E, determinados assuntos merecem uma cautela singular.

(SILÊNCIO PERTURBADOR)


NOÊMIA

Era um som gutural... não se pode chamar de ronco nem mesmo de ressonar. Agonia. Era agonia . A pergunta é: estamos preparadas para a morte dela?

DOCA (JORNAL)

Vão estrear Hamlet... eu gostaria de pode assistir. (REPETINAMENTE , TRÊMULA) É lógico que eu sei que não iremos; eu sei, eu sei...

MARGARIDA

Marina: sua camisola está cheia de furos de cigarro. Hora dessas incendeia-se durante o sono. Mania de fumar durante a noite. Mania!

MARINA

Seria mesmo terrível, por exemplo, que suas perucas derretessem  com o meu fogo, não é Margarida?  Entretanto, esquecendo as perucas e... bem, o que não pode ser destruido não deve estar bem vivo.

DOCA

Terminem o café. Seria bastante vantojoso se as ironias ficassem fora da minha cozinha. (TEMPO. PARA MARGARIDA) Você trouxe o disco com a música que eu pedi?

MARGARIDA (SORRINDO)

Mais tarde abriremos espaço na sala, coloco o disco e... podemos até dançar se quiserem.


(TODAS ASSENTEM COM ANIMAÇÃO E SORRISOS)


NOÊMIA

Tenho um milão de provas para serem corrigidas.

MARINA

Faremos silêncio!

NOÊMIA

Concentro-me melhor com os ruídos. Seus sapatos vulgares  marcando o assoalho de um lado para o outro da casa... enfim!

MARGARIDA

Ah! Essas provas eternas, Noêmia. Há séculos o magistério não lhe pertence, minha pobre!

NOÊMIA

Tudo indica que Ela não passa de hoje, Doca.

DOCA

Levamos o leite?

MARINA

Você poderia fazer isso, Doca? Com você ela é mais receptiva.

DOCA

Não me reconhece.

MARGARIDA

Não reconhece nenhuma de nós, está claro. Nem a si mesma.

MARINA

Não vamos alimentá-la. regurgita tudo o que consome. Deixe-a morrer em paz.

SILÊNCIO. CLOSE EM CADA ROSTO. TODAS DESVIAM OS OLHOS PARA O CENTRO DA MESA.

ÁUDIO MUSICAL INICIA EM FADE IN PARA PRÓXIMA CENA.

TODAS (NÃO AO MESMO TEMPO)

Que morra!


DESFOCAR CENA 3.

CENA 3

DANÇAM, SINCRONIZADAS COMO NUM MINUETO.

1 - A CÂMERA FOCA O ROSTO DE MARINA, FUSÃO PARA O PENSAMENTO DELA, IMAGEM:

"MARINA ESTÁ COMENDO UM GRANDE PEDAÇO DE CARNE, ÁVIDA, QUASE CRUA, AINDA INCRUSTADA NUM OSSO"

2 -FUSÃO PARA ROSTO DE MARGARIDA    E PENSAMENTO, IMAGEM:

"MARGARIDA TENTANDO ARRANCAR PEDAÇOS DE CARNE, IDÊNTICAS AOS DE MARINA, DE MÃOS DECIDIDAS A NÃO SOLTAREM A COMIDA."

3 - FUSÃO PARA OS ROSTOS DE DOCA E NOÊMIA, PENSAMENTO, IMAGEM:

" COMEM PEDAÇOS DE CARNE COMO AS ANTERIORES E SORRIEM ALUCINADAS ."

4 - FUSÃO PARA UM QUADRO NA PAREDE. A PINTURA RETRATA CANIBAIS ANTEPASSADOS. AS PESSOAS RETRATADAS LEMBRAM AS MULHERES DA CASA.

5 - ABRINDO PARA A DANÇA. A MÚSICA CESSA. TODAS PARAM E OLHAM PARA UM MESMO PONTO: O QUADRO. FADE OUT PARA PRETO.

CENA 4

ABRE PARA MARGARIDA À NOITE NA RUA VOLTANDO PARA A CASA. ABRE O PORTÃO, FECHA. CAMINHA ATÉ A VARANDA. OLHA PARA TRÁS UM INSTANTE. ABRE A PORTA, ENTRA. FOCO PARADO NA PORTA SE FECHANDO. CORTA PARA CENA 5.

CENA 5

DOCA, MARINA E NOÊMIA REUNIDAS À MESA, JANTANDO. OLHAM PARA MARGARIDA À PORTA DE ENTRADA DA COZINHA, ARRUMANDO A PERUCA. FAZ UM GESTO DE "OLÁ" E SAI PARA DENTRO DA CASA.

DOCA

Ela voltou cedo, dessa vez.

MARINA

queria poder sair, também.

NOÊMIA (rindo com escárnio)

somos as mulheres; e as mulheresmo que somos não vão à rua.

DOCA

Não vão!

MARINA

Eu gostaria de tentar. O passado  foi a tanto tempo.

NOÊMIA

O risco é todo seu. (baixo) Uma de nós tentou e veja onde está: agonizando sobre a cama suja.

MARINA (ACENDE um CIGARRO)

Ela saiu no meio do dia... Tudo estava claro demais...procurou por isso. Havia até protesto nas ruas para derubar a presidência. deixou-se ser vista. esqueceram a política e voltaram-se contra Ela.

DOCA (CONCENTRADA NO JORNAL)

Não há uma noticia cultural que valha a pena...

MARINA

Acabe de uma vez com esse pasquim com notícias velhas.

NOÊMIA

Superadas!

DOCA (AGARRA-SE AO JORNAL)

Não há esperanças sem informação!

MARINA

Essa noite eu vou sair... De madrugada... Só até ao portão...

MARGARIDA (aparece à porta, pálida)

O que faremos com o corpo?

SILÊNCIO

A CÂMERA ESMAECE O QUADRO VIVO QUE SE FORMOU E VAI ABRINDO PARA A PRÓXIMA CENA

CENA 6

DOCA COZINHANDO NUM GRANDE CALDEIRÃO. ALGO QUE SE APREÇA UMA FARTA FEIJOADA. OSSOS E PEDAÇOS DE CARNE ESTÃO AINDA SOBRE A BANCADA DA PIA.

NOÊMIA (ENTRA, COM UMA ROSA NAS MÃOS E A DEPOSITA LENTAMENTE SOBRE AS CARNES NA PIA)

O cheiro está ótimo, Doca.

DOCA

São as ervas. Perfumam bem.

MARGARIDA (entra, peruca negra. traz sua coleção de perucas e as penteia sobre a mesa)

DOCA

Vai espalhar cabelo sintético por toda a cozinha, Margarida!

MARGARIDA

Você colocou coentro nisso? Sabe que não como nada que contenha coentro.

DOCA

Era necessário. Coentro dá um toque humano no preparo do prato.

MARGARIDA

Humano ou não, passarei fome hoje.

NOÊMIA

Meu Deus; as provas! (SAI)

DOCA (Chamando)

Noêmia?! (À MARGARIDA) Nem imagina o que...

MARGARIDA (EM CIMA)

Noêmia não encontrará as provas, não é isso? Eu disse que Marina acabaria incendiando alguma coisa com seus malditos cigarros.

DOCA (DEBRUÇA-SE SOBRE O ESPALDAR DE UMA CADEIRA, SEGURANDO UMA COLHER DE PAU ESCORRENDO LÍQUIDO GROSSO)

Quando você vai à rua... como é?

MARGARIDA

Escuro! nem mesmo vejo o rosto dos que me tocam. Apenas tocam... Um deles poderia ser alguém da família. Mas não vejo nada. Apenas deixo acontecer. Uma vez, um deles, me fez uma pergunta: Vous, sous la perruque, c'est le logement des femmes qui meurent de faim?* Acho que foi assim que ele falou... Eu sorri e, para não ter que dar uma resposta direta, coloquei minha boca na dele. Deixo acontecer. E quando parece ser o momento de voltar para a casa, eu volto.

(*Você, debaixo dessa peruca, pertence a habitação das mulheres famintas?)


DOCA

É difícil para você... não é?

MARGARIDA

Se assim não fosse, estariamos sem pão. Por isso me revolto quando coloca coentro na comida. Eu detesto coentro!

DOCA

Você plantou coentro no quintal.

MARGARIDA

Enganada. Achei que fosse salsa.

NOÊMIA (ENTRA.  Olhar perdido)

As provas! Como serão os meus dias sem as minhas provas?

ÁUDIO - SOM DE PORTA BATENDO.

AS TRÊS DESVIAM OS OLHARES PARA A PORTA DA COZINHA. MARINA APARECE, APOIANDO-SE NA PAREDE, COMPLETAMENTE ENSANGUENTADA.

MARGARIDA, dOCA E nOÊMIA

Marina!

MARINA (sorrindo)

Valeu a pena. Vi crianças no parque. Homens nos bares. Mulheres nas janelas e nos mercados. E um casal de jovens no beijo mais lindo que pude ver na minha vida toda. (ARQUEJA) Me levem para a cam... Noêmia cuidará de mim.

CORTE IMEDIATO PARA A CENA 7.

CENA 7

DOCA PREPARANDO O CAFÉ DA MANHÃ. NOÊMIA ENTRA VESTIDA EM CAMISOLA, SENTA-SE, ACENDE UM CIGARRO. MARGARIDA  VEM EM SEGUIDA, ALINHADAMENTE VESTIDA, A PERUCA É CASTANHA COM UM COQUE PERFEITO.

DOCA

Como ela está?

MARGARIDA

Cantarolou a noite toda. E pediu que abrisse as janelas. Estava frio e eu lhe dei uma coberta. Usou a coberta num manto sobre os ombros e cantou Ave Maria de Gounod. Inteirinha. Diversas vezes. Toquei um pouco de piano, invisível, como se as teclas estivessem sobre a  mesa antiga de liba** da vó Abaé***... E ela sorriu.

 **liba (tupi) = variação de ubá - madeira - árvore.

***ABAÉ (iNDIGINA)= UMA OUTRA PESSOA.

NOÊMIA

Então não foi um sonho?

DOCA

não ouvi absolutamente nada. dormi como uma pedra.

NOÊMIA

O que traz o jornal hoje, querida Doca?

DOCA

O de sempre... (depois de um longo tempo, as lágrimas correm por seu rosto) O de sempre!

IN OFF: VOZ DE MARINA CANTANDO AVE MARIA DE GOUNOD. O CANTO DELA MIXA-SE COM INSTRUMENTAL TEMA DO FILME. A CÂMERA AFASTA-SE DAS LÁGRIMAS DE DOCA PARA PLANO ABERTO. TOMAM CAFÉ. SOBEM OS  CARACTERES FINAIS. NOÊMIA ACENDE OUTRO CIGARRO. MARGARIDA DEDILHA A MESA COMO SE TOCASSE PIANO, SORRI; ESTICA OS BRAÇOS E LIMPA O ROSTO DE DOCA. DOCA SORRI TRISTEMENTE ENQUANTO PASSA MANTEIGA NO PÃO.

FIM









sábado, 14 de abril de 2012

 Meu amigo e competente profissional
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Bruno César Rosa Diniz
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quarta-feira, 28 de março de 2012

ROSTO DESTILADO

 
A dor de quem pede socorro em silêncio,
 sozinho dentro de um quarto repleto de fantasmas, criados  para abrandar a solidão é o chute de partida de Rosto Destilado . Antonio (interpretado pelo ator Matheus Gherardi),  representa a busca de soluções para o alcoolismo e coloca ao espectador a maioria das fases vividas pelo alcoolista .



 

O espetáculo traz a discussão e claridade ao tema, tentando estabelecer a importância  de observar os sintomas, o desenvolvimento e as dificuldades advindas do alcoolismo .
Ademir Esteves (autor e diretor), procurou em fatos reais e pesquisas realizadas pela Drª. Edilaine Silva Gherardi Donato, a maneira mais direta de trabalhar o assunto em cena . O espetáculo é um grande depoimento e espera servir como elemento de apoio aos que sofrem com a doença e, certamente, prevenir a continuidade dela . 

OS FAUSTOS

" Sendo um arquétipo da alma humana, o mito de Fausto jamais se esgotou simbólica e literalmente, de modo que diversos artistas contemporâneos e posteriores a Goethe reagiram criativamente à personagem."
Nesse mesmo mês pude assistir duas versões modernas de Fausto: a do Núcleo Nucleo Evoé Evoé de Batatais,"A incrível história de Benedicto Fausto e de seu irmão Persivaldo o sonhador" de Luciano Dami e direção de Aluísio Gentiline, com um lirismo e uma transcendência da alma brasileira atrelada aos cânones gregos que nos permitem até um sonhar diferenciado sobre viver. A segunda versão, assistida agora a pouco, numa estreia ao ar livre com o Grupo Grupo Teatral Engasga Gato e Cia. Cia Cornucópia de Teatro, sob direção de Dino Bernardi. Lucas Arantes, atira tudo numa grande panela pra lá de feitiços narrativos, utilizados pelos atores como uma consagração à crítica da razão inesperada com um fôlego de leões à caça da verdade e da ironia pungente. Fica a sensação de um começo bem feito, embora tenha certeza de que o espetáculo ganhará maiores forças nas próximas experimentações. Contudo, as falas das prostitutas ainda são marteladas em mim: "daqui pra cima sou luto, daqui pra baixo sou toda carnaval."
Ademir Esteves/28/03/2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

INSTITUTO A COISA ABRE INSCRIÇÕES PARA O CURSO/MONTAGEM



Desdobrando a Cena

A real intenção desse projeto é expandir a formação de núcleos estruturados de pesquisas, promovendo uma junção entre os artistas na carpintaria do fazer teatral, desde a escolha de textos e pesquisas elaboradas para a construção de espetáculo, utilizando linguagens dos diversos segmentos teatrais . Apresentação contínua dos resultados finais, no próprio Espaço a Coisa e ou alternativos ou não, para público em geral, mantendo a formação de platéias e novos níveis de reconhecimento cultural. Consolidar uma política de interesses e solidariedade entre as equipes envolvidas, monitorando através de jogos e exercícios a construção e metas para uma agenda cultural pertinente e continuada .
às quartas-feiras

 Opções para Manhã, Tarde ou Noite

Espaço A Coisa – Rua Amador Bueno, 1300, Centro. 

Ribeirão Preto-SP - FONE: 16 3877 7211
de segunda a sexta das 14h as 18h.

FACILITADOR: Ademir Esteves

segunda-feira, 19 de março de 2012

PROFETA FULIGEM - curta metragem de |Ademir Esteves

título: profeta fuligem
curta_metragem de ademir esteves
Personagens
Profeta Fuligem - Aparentemente morador de rua, descalço, com aparência entre 45/50 anos, vestido de noiva.
Teodoro   - homem que visita o zoológico.  Também poderá ser um personagem feminino,efetuando-se a transformação nas falas.
Visitantes do Zoológico
ARGUMENTO
Teodoro visitando um zoológico qualquer, apenas percebido ao final de todo o roteiro, depara-se com o Profeta Fuligem, aparentemente um morador de rua. Estabelecem um diálogo sobre a existência de Deus.
tAKE 1
AÇÃO
MÚSICA. FADE IN  PARA ÂNGULO BAIXO NOS PÉS CALÇADOS DE TEODORO CAMINHANDO PELAS RUAS DO ZOOLÓGICO. CORTA PARA COPAS DE ÁRVORES E O SOL ENTRE AS FOLHAS.
TAKE 2
ÂNGULO BAIXO NOS PÉS DE PROFETA FULIGEM. A CAMERA SOBE PELO CORPO ATÉ AO CLOSE-UP. OS OLHOS DO PROFETA ESTÃO FIXOS PARA FRENTE. DISSOLVER PARA  OS PÉS DE TEODORO, SUBINDO PARA O CORPO E PARA OS OLHOS, QUE ESTÃO ESTRANHAMENTE FIXOS PARA A FRENTE.
TAKE 3
Profeta Fuligem
Está claro! Eu não julgo nada! Pareço com alguém que tenha perguntas? (SILÊNCIO) Bem, bem! Você me agride, evitando um encontro comigo.
Teodoro
(olha ao redor, estranhamente surpreso e quase sorri)
Eu não esperava ... uma  coisa ... dessas.
Profeta Fuligem
Tenho pavor quando penso nisso: estar diante do fracasso. Deve saber do que estou falando. Falo da degradação que chegou: você e todo o mundo. Então, de repente, entram num sonho e acreditam que podem vir bater nas portas dos anjos, clamando piedade. Responda-me, por que não veio antes, quando havia tanta oportunidade para a redenção?
Teodoro
Do que é que o senhor está falando? o senhor...
Profeta Fuligem
Fuligem... Chame a mim de Profeta Fuligem, é o quanto basta.
Teodoro
ah, sim! um profeta? (sorri)
DOLLY OUT para leões.  Depois para pássaros. Depois para macacos. (Não mostrar as jaulas). DOLLY OUT para o rosto de Teodoro.
Teodoro
(irônico) Que venham as suas parábolas...
Profeta Fuligem
Animei-me excessivamente para entender as coisas, digo de coração aberto e, talvez triste: apenas convivi com o que havia ao meu redor. Bem, tenho perguntas sim... Entretanto... Pode ser que seja dono de uma alma com boas intenções, todavia não devo abrandar minhas impressões por tão pouco. O caminho que vocês escolheram calcou marcas profundas em nós, a tal ponto que estamos perto de nos tornarmos impacientes com quaisquer atitudes tomadas pelos homens. E isso é tudo.
Teodoro
(hipnotizado) Somos inimigos de Deus?
Profeta Fuligem
Não arrisque dizer o nome de Deus. você não é digno... vocês são indignos Dele.
Teodoro
(hipnotizado)E, se ao despertar, renegar minha vida, meus bens, meus desejos, ainda poderei chamá-lo de Pai?
take 4
QUICK MOTION - pelos caminhos do zoo, animais e pessoas andando pelos ambientes e olhando para trás quando a camera se aproxima como se houvesse alguem correndo ao encontro delas.
take 5
Teodoro
(hipnotizado)E, se ao despertar, renegar minha vida, meus bens, meus desejos, ainda poderei chamá-lo de Pai?
Profeta Fuligem
Acredita, sinceramente, que essa foi a única oportunidade que teve? Para quê foram criados com tamanha perfeição? Não utilizam nada da sabedoria que possuem. Nem sabem o que é melhor para cada um. Somente imploram o subsídio de Deus: "Se, eu ficar rico, vou ajudar um monte de gente. Faça-me ganhar na loteria. Amém." Consumo, rapidez, vaidade, volúpia... Horror, horror, horror!
ÁUDIO: ECOS DE "GRITOS" DE PAVÃO.
TEODORO OLHA ASSUTADO PARA UMA DIREÇÃO QUALQUER.
Época de acaslamento dos povões, ecoam noite e dia... noite e dia. (ENCARANDO PROFUNDAMENTE TEODORO) Quando penso nas lágrimas que derramamos em nome das criaturas! "Tira-me essa dor, meu Deus. Faça isso e acreditarei que o Senhor existe!"
ÁUDIO: ECOS DE VOZES HUMANAS DIFERENTES REPETINDO: "Tira-me essa dor, meu Deus. Faça isso e acreditarei que o Senhor existe!"
É, ouvi esse estilo de solicitação inúmeras vezes. Pouco se agradece, pouco se oferece, pouca sinceridade e tão pouca crença. Tudo decorado, como fazem os canastrões no palco. Um Pai Nosso e uma Ave Maria... Lembranças fúteis, que são repetidas às pressas e que oferecem alívio imediato: "estou em dia com os céus." Mediocridade! Com essa humilde pretensão de ser ouvido, arrefece ainda mais a indisposição dos anjos.
Teodoro
eu sou a sua escolha? Quer dizer: preciso mesmo te escutar e achar que isso me faria algum bem? Seria melhor que você contasse uma piada. Deus não enviaria alguém com tanta mágoa para me fazer crer em alguma coisa. (Tempo)
A CAMERA PASSEIA ENTRE OS OLHARES DE AMBOS DURANTE UM BOM TEMPO. O ÁUDIO EXECUTA, MAIS UMA VEZ, OS GRITOS DO PAVÃO E AS VOZES HUMANAS NA REPETIÇÃO DAS FRASES: "Tira-me essa dor, meu Deus. Faça isso e acreditarei que o Senhor existe!"


Profeta Fuligem
Sempre tive outra impressão sobre os anjos. Provavelmente a melhor impressão. A certeza que posso ter é a baliza do destino: o inferno! E como padecem os que para lá vão! E digo mais, não há fogo nem chibatadas naquele lugar. Há silêncio. Assombrosa quietude. Os que passam pelas celas perdem a voz, a audição, mas não o olfato, porque lá há um fedor cáustico, irreconhecível, nunca antes inalado por ninguém. E o pior, não há contato. Você vive só, num quadrado escuro e frio, paredes viscosas como pele de cobra e, nu... Sem ouvir e mudo, completamente, para sempre. (rindo) Bastam seus olhos pra me dizerem: você está com tanto medo de morrer...
FUSÃO DA BOCA RINDO DE FULIGEM PARA O CÉU ABERTO. DEPOIS COM NUVENS. DEPOIS COM NUVENS ESCURAS.
ÁUDIO: MÚSICA CONTUNDENTE, FORTE, ATÉ CULMINAR COM TROVÕES.
TAKE6
AÇÃO: PÉS DE TEODORO CORRENDO O CAMINHO CONTRÁRIO DO INÍCIO DO TAKE 1, SOB UMA FORTE CHUVA. FUSÃO PARA O ROSTO DE FULIGEM CHORANDO ATRAVÉS DA CORTINA DE CHUVA. FAD OUT.
AMANHECER. A CAMERA DESCE DAS COPAS DAS ÁRVORES  PARA OS PÉS DE TEODORO, VOLTANDO PELO CAMINHO DO INICIO.
VOZ DE PROFETA FULIGEM
Você voltou, Teodoro?!
TEODORO PARA DE CAMINHAR E VIRA-SE. FUSÃO PARA O ROSTO DE FULIGEM, SORRINDO COMO UM ANJO.
Teodoro
O senhor acha que um vestido de noiva representa uma profecia?
Profeta Fuligem
Um vestido de noiva é sempre um vestido de noiva. Apenas trapos para esconder... como papéis que registram leis assinados por quem nada significa diante de um vestido como esse. (sorri) Na verdade, Teodoro, encontrei essa roupa num saco de lixo, era o que tinha pra vestir sem que me visem nu ou demasiadamente nu.
Teodoro
(sorri) Por mais instigante que seja... ou simbólico... demente, acho que seria a palavra... não resisti em voltar e ver se realmente o senhor estaria aqui, no mesmo lugar... como uma atração circense... uma alucinação poderosa da minha embriaguês humana... não sei! Só sei que estou de volta... e quase acredito em alguma coisa maior que eu.
Profeta Fuligem
Pode ser que seja dono de uma alma com boas intenções, todavia não devo abrandar minhas impressões por tão pouco. O caminho que vocês escolheram calcou marcas profundas em nós, a tal ponto que estamos perto de nos tornarmos impacientes com quaisquer atitudes tomadas pelos homens. E isso é tudo. Talvez, quase tudo.
Teodoro
Somos inimigos de Deus?
FUSÃO RÁPIDA PARA A MÃO DE FULIGEM ESBOFETEANDO TEODORO. VOLTA PARA O ROSTO DE FULIGEM.
Profeta Fuligem
Aí você me pergunta: Deus é tão mau assim? (sorri, depois fica sério e quase chora) Ele está cansado! É mais um desistente. Faltam-lhe coragem e crença para continuar investindo na humanidade.
ÁUDIO: ECOS DE "GRITOS" DE PAVÃO.
Teodoro
O diabo venceu? 
FUSÃO RÁPIDA PARA A MÃO DE FULIGEM ESBOFETEANDO TEODORO.
Teodoro
O diabo venceu? 
FUSÃO RÁPIDA PARA A MÃO DE FULIGEM ESBOFETEANDO TEODORO.
Teodoro
O diabo venceu? 
FUSÃO RÁPIDA PARA A MÃO DE FULIGEM ESBOFETEANDO TEODORO.
SLOW MOTION PARA O ROSTO DE TEODORO ABAIXANDO PARA O CHÃO. OLHA PARA AS PRÓPRIAS MÃOS. SUAS MÃO SOBEM E AGARRAM A JAULA ONDE ESTÁ PRESO PROFETA FULIGEM. O PLANO ABRE PARA A VISÃO DO ZOOLÓGICO. APENAS OS DOIS ESTÃO NA CENA. TEODORO FORA, COM AS MÃOS PRESAS À JAULA E PROFETA FULIGEM EXPOSTO DENTRO DELA.
O ROSTO DE TEODORO ESTÁ BANHADO EM LÁGRIMAS, MAS SUA EXPRESSÃO É DE REPÚDIO.
Teodoro
o diabo venceu?
SILÊNCIO. ÁUDIO INICIA UMA MELODIA TRISTE, SUBINDO ATÉ O FINAL DA  CENA.
Teodoro
o diabo... sou eu?
PROFETA FULIGEM ATRAVESSA A JAULA COMO SE FOSSE ESBOFETEÁ-LO MAIS UMA VEZ, MAS CONSTERNA-SE E O ABRAÇA CHORANDO.
Teodoro
Como faz frio aqui!
Profeta Fuligem
(ainda com ele nos braços) Sim, faz! Não temos aquecedores, nem corações sinceros que venham preencher com hálito quente o vazio que o inverno trouxe. (Afasta-o) a verdade é que, sendo um sonho, será também autêntico quando sua letargia desaparecer completamente. Nem posso dizer que o amo. Nem posso dizer que o amo...
PROFETA FULIGEM SAI CAMINHANDO PARA LONGE. TEODORO ATRAVESSA A JAULA E SENTA-SE NUM TRONCO DE ÁRVORE. OS VISITANTES VÃO CHEGANDO PERTO PARA VISITAR A NOVA AQUISIÇÃO DO ZOOLÓGICO. ATIRAM PIPOCAS, GALHOS, ETC.
ZOOM-OUT
FIM/março/2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


Critica (Jornalista: Djalma Batigalhia)

Crítica (Jornalista: Djalma Batigalhia)

Opinião - Publicado na edição de 15 e 16 Junho - Jornal Tribuna - Ribeirão Preto - pag 02





Madame Blavatsky



por Djalma Batigalhia


Não é o melhor espetáculo de todos os tempos. É bem mais do que isso: é o melhor de uma geração de atores espetaculares em busca do autoconhecimento. Como montagem teatral, Madame Blavatsky, teria de dividir a "pole position" com outros clássicos de Plínio Marcos. A montagem, entretanto, é uma das poucas expressões bem-sucedidas do que é e do que pode ser uma arte coletiva. Não tem atrás de si um gênio solitário e poderoso. É o resultado de uma convergência de um grande sonho, numa época onde os grandes sonhos não estão sendo devidamente sonhados. Parte da nossa bela juventude, vive ainda num vetor ou numa poesia alienante, julgando que tudo ou é passado ou é futuro. Blavatsky, sempre viveu, corajosamente, seu presente.

Sem procuração para defender ou elogiar o diretor Ademir Esteves e a equipe de atores da peça, acredito que Madame Blavatsky é bem mais que a soma de um produtor iluminado, um elenco profissional e um propósito determinado. É, acima de tudo, uma idéia que só pode nascer no teatro e para o teatro. Os jovens atores não parecem estar apenas trabalhando ou interpretando, mas se divertindo.

A apresentação da peça está se deslocando de Ribeirão Preto para uma turnê que vai percorrer o interior de São Paulo e algumas capitais brasileiras. Aqui foi um sucesso, lá fora será ainda mais.

Os símbolos verbais reinantes no espetáculo encontraram cumplicidade na eliminação da vaidade dos próprios atores. O elenco, oito mulheres e seis homens, se submeteu à máquina elétrica para raspar o cabelo e todos atuam totalmente carecas. Para eles o amor pela arte justifica o corte radical. “Nada foi imposto, o grupo tomou esta decisão em conjunto e está valendo a pena”. Cortou quem quis, chorou quem teve vontade, sem o apelo de emoções programadas.

Mudaram-se os pigmentos da pele, os fios jovens de cabelos se foram, mudaram-se a língua e a linguagem. A montagem de Madame Blavatsky consumiu perto de um ano de pesquisa e ensaios diários. Tudo já foi falado, e a fala ganhou um sentido a mais: tem cheiro, gosto, textura e som. A peça acontece dentro de um espelho d’água - o grupo fica 1h30 dentro da água.

A personagem, independente de ser boa ou má, ótima ou péssima, é desenhada através de cenas e diálogos que não necessariamente representam a história biográfica de Helena Blavatsky e sim o autoconhecimento e a busca da espiritualidade pelo homem comum.

O pretexto de Plínio Marcos era mostrar o momento da verdade no teatro quando, além da palavra, ele foi obrigado a incorporar a imagem. E raríssimas vezes o teatro de Plínio Marcos reuniu as duas coisas de forma tão simples e encantadora.

Os textos de Plínio Marcos nasceram da necessidade de absorver uma espécie de luxo e de lixo do nosso cotidiano: a cultura em suas diversas expressões e as fofocas em suas múltiplas manifestações. Em Madame Blavatsky, o autor desdenhou o lixo e optou pelo luxo.

Sem sectarismo, pluralista, Plínio se destaca como referência nas artes e movimentos mais importantes da nossa geléia cultural. O autor não pesquisou a saga da mística russa que foi a fundadora da Sociedade Teosófica (1875) e travou polêmica com o darwinismo sobre a "ascendência" do homem - se animal ou espiritual. Como sempre, não hesitou em misturar os registros da vida e da ficção. O texto acabou trazendo à tona uma visão da personagem muito pessoal. Com a desonrosa exceção de um certo cronista que nesse espaço e momento escreve, os leitores de Plínio Marcos formam um primeiríssimo time da arte e da literatura brasileira.

Quanto mais a vida moderna se massifica, maior a necessidade de difundir os valores culturais. Madame Blavatsky é uma contribuição singular para nossa cultura. Por isso, é preciso saudá-la com muitos fogos, como se usa fazer nos jogos de nossa seleção. A ficha técnica e informações variadas você encontrará no sitio www.flogao.com.br/madameblavatsky. Não lembro quem me indicou, talvez uma amiga, um vizinho, talvez a lembrança confusa de primeiras leituras. O fato é que Madame Blavatsky é uma obra de arte coletiva em que até o mais longínquo e obscuro espectador, com grau menor ou maior de modéstia, tem a certeza de que dela participou.

Se pudesse, a exemplo de André Mendes, Anne Pelucci, Douglas Faria, Emmanuel Barbosa, Fernanda Pacheco, Flávia Pacheco, Giba Freitas, Josy Souza, Leka Brandão, Lindsay Ariev, Marcelo Moda, Natalia Coutinho, Silvana Guerra e Vinicius Ávila, também rasparia o cabelo e mudaria meu rosto. Rosto que me acompanhou embora eu nunca tenha tentado o reencontro agora impossível. Rosto que me caiu aos pés de ideais rasgados, mas não esquecidos. Rosto que incertamente me acusa e, certamente, ainda me condena. Um rosto que não existe mais.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

CENA CONSTANTINA SUPER MAMA

CONSTANTINA SUPER MAMA

I gotta tell ya, sega, gente! La vita di una madre e di quella storia mai ... Cartella. Prima di giorni sovava di massa e di notte, era che la massa di montagna e dato da mangiare per il mio bambino ogni mezz'ora, poi mi ha detto di pugno la polenta ragazzo, e da quel giorno mi cuocere la polenta per la prima colazione, per pranzo, a cena e sto ancora polenta fritta per lo spuntino di mezzanotte.
Nacque così magro, povero, ma così sottile che pensavo avrebbe perso nei primi giorni di età. Oh, Dio Santo! Benvenuto Giorggino è il nome del ragazzo e sono rimasto due settimane, tre ore e venticinque minuti di lavoro. Ho pensato, ma è nato, la sua madre ta già ricevendo pazzo, oh figlio mio Benvenuto!
Ma che cosa? Ero un bambino quando descadeirada brava gente decide di venire al mondo. Ho quasi fuori di testa quando mi aveva messo gli occhi su qualcosa che coisiquinho. Benvenuto è nato solo otto chili e novecento grammi di nascita normale.
I medici hanno perforato il piccolo bambino di allattare direttamente. Ma io non sono soddisfatto con il latte dal mio tette, no. Ho dato mamsr di 10 in 10 minuti, poi ha dato un amassadinho pasta con 5 banane, besciamella, salsa rossa, salsa tartara, porpeta battere in un frullatore e un dessert per due cursori avocado. Questa è la prima settimana di vita, perché ora la seconda settimana ho aggiunto carne di maiale al forno. ma, ogni sacrificio di una madre, è stato in discesa. I poveri, in due settimane, ha guadagnato solo (mostra due dita, subito) venti sterline. Non è niente! Niente.
Ma Dio è Padre, non patrigno, eco? Il mio Bambino è cresciuto. Sempre magro. Ma sono aumentate.
Ho anche organizzato un pazzo che lo ha sposato. Una puttana. Non sa o prendere una pentola per non parlare di cucinare.
Ma un consiglio io do mamme parasimpatico: anche se si taglia il cuore del vostro Bambino da parte di unirsi con alcuni vegetariani pigro, si continua a nutrirlo, perché se non, oh, oh, oh, la Madonna, il ragazzo può venire una carota gialla così sarà per questo per,,, ah! Io non so nemmeno cosa chiamata che ha portato alla mia gesso Benvenuto Bambino lui fuori strada. Sono stato fortunato perché vivono qui a casa, allora tutto è più facile. Eco!
Ma per quanto abbiamo lasciato la polenta pronta, il figlio di una buona madre ora inventato di andare ogni giorno in pizzeria, in alto, la pizza con il cioccolato. Prendo, perché così ha voluto ho acquisito un po ', Madonna.
E 'così debole, povero ragazzo. Uno stuzzicadenti per pulire i denti. Sottile, quasi fermarsi lentamente. Gli orsi non sanno come .... quelle cose il marito e la moglie con Roselet. Ma va! Roselet, vedere se questo è il nome di una madre in figlia come me. Basta consegnare Dio stesso. Oh, figlio mio, vieni qui con la madre, yo ho finito di parlare con la terapia di gruppo ... salutare la gente qui. (Il bambino entra nella fine della stringa), la madre ha già chiesto al trentadue pizza al cioccolato per te, vedi, il mio bambino. Oh, Madonna, come magro, poverino.
'così debole, povero ragazzo. Uno stuzzicadenti per pulire i denti. Sottile, quasi fermarsi lentamente. Gli orsi non sanno come .... quelle cose il marito e la moglie con Roselet. Ma va! Roselet, vedere se questo è il nome PARENA per una madre come me. Basta consegnare Dio stesso. Oh, figlio mio, vieni qui con la madre, yo ho finito di parlare con la terapia di gruppo ... salutare la gente qui. (Il bambino entra nella fine della stringa), la madre ha già chiesto al trentadue pizza al cioccolato per te, vedi, il mio bambino. Oh, Madonna, come magro, poverino.

Original

Eu vou te contar, viu, nêgo! A vida de uma mãe e aquela história de sempre... Massa. Antes eu sovava massa dia e noite, fazia aquela montanha de massa e dava de comer para meu pequeno menino de meia em meia hora, depois me falaram pra socar polenta no menino, e desde aquele dia eu cozinho polenta para café da manhã, para o almoço, para a janta e ainda dou polenta frita para o lanche da meia noite.
Ele nasceu tão magrinho, pobrezinho, mas tão magrinho que eu pensei que ia perder ele nos primeiros dias de nascido. Ai, Deus Santo! Bevenuto Giorggino é o nome do menino; eu fiquei duas semanas, três horas e vinte e cinco minutos em trabalho de parto. Eu pensava: mas nasce, que sua mãe já ta ficando doida, ô Bevenuto criança minha!
Mas o que? Eu já estava descadeirada quando filho de uma boa gente resolveu vir ao mundo. Quase me tive um treco quando me botei os olhos naquele coisiquinho de nada. Bevenuto nasceu só com oito quilos e novecentos gramas, de parto normal.
Os médicos já socaram o bebezinho pra mamar direto. Mas eu não me contentava com o leite dos meus peitos, não. Eu  dava de mamsr de 10 em 10 minuto, depois dava um macarrão amassadinho com 5 bananas, molho branco, molho vermelho, molho tártaro, porpeta batida no liquidificador  e pra sobremesa dois frapês de abacate. Isso na primeira semana de vida, porque já na segunda semana acrescentei porco assado. mas, todo sacrifício de uma mãe, foi por água abaixo. O pobre, em quinze dias,  engordou só (mostra dois dedos, sofrida) vinte quilos. Não é nada! Nada.
Mas, Deus é Pai, não padrasto, eco? Meu bambino cresceu. Sempre magrinho. Mas cresceu.
Até já me arranjo uma energúmena que se casou com ele. Uma puta. Não sabe nem pegar numa panela que dirá cozinhar.
Mas um conselho que eu dou  paras mães: mesmo que seu bambino te cortou o coração se juntando com alguma  vegetariana preguiçosa, continua você a dar de comer pra ele, porque senão, ai, ai, ai, pela Madonna, é capaz do rapaz virá uma cenoura de  tão amarelo que vai ficar per causa daquela,,, ah! Nem me sei do que chamar aquela emplastra que levou meu bambino Bevenuto para o  mal caminho. Eu tive sorte porque eles moram aqui em casa, então fica tudo mais fácil. Eco!
Porém  por mais que deixo as polentas prontas, o filho de uma boa mãe agora inventou de ir todo dia na pizzaria, pra cume as pizza de chocolate. Eu levo, porque eu queria tanto que ele engordasse um pouco, Madonna.
É tão fraquinho, coitado. Um palito de limpar os dentes. Fininho, devagar quase parando. Nem sei como agüenta fazer.... aquelas coisas de marido e mulher com a Roseleta. Mas vá! Roseleta, vê se isso é nome de uma nora pra uma mãe como eu. Só entregando para Deus mesmo.  O, meu filhote, vem cá com a mãe, io já terminei de falar com o grupo de terapia... fala oi  aqui para as pessoas. (O filho entra no fim da cordinha) a mamãe já pediu as trinta e duas pizzas de chocolate pra você, viu, meu bebê. Ah, madona, como é magrinho, coitado dele.

PABLO NERUDA V

Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

n t q: TEXTOS DE MINHA AUTORIA

n t q: TEXTOS DE MINHA AUTORIA: ALGUNS TEXTOS DE MINHA AUTORIA AGORA POSTADOS NO BLOG ntq

TEXTOS DE MINHA AUTORIA

ALGUNS TEXTOS DE MINHA AUTORIA AGORA POSTADOS NO BLOG ntq

n t q: ROSTO DESLILADO

n t q: ROSTO DESLILADO

T T


TENTA QUE TENTA

Texto e canções Ademir Esteves
“sustentabilidade é um conceito sistêmico; relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana”.


Personagens:

DONA UJA (CORUJA)

KÉSTOR (CASTOR)

ESCARAVELHO (BESOURO)

DIQUE (CASTOR)

MOURICINHO (OURIÇO)

FOLHILDA (ÁRVORE)

AUAURÉLIA (CADELINHA POODLE)


                                                                                              CENA 1

MÚSICA ALEGRE. FOLHILDA ESTÁ TODA ENCOLHIDA. DE REPENTE COMEÇA A DESPERTAR E SUAS FOLHAS CRESCEM. CANTA

FOLHILDA

 É dia, um novo dia paira em todo canto
Do triste o dia espanta todo o pranto
É minha alegria estar aqui plantada
Olhando tudo o que acontece na floresta

Esse vento que parece vir do céu
Canta uma canção azul de mar
Sopra numa flauta doce o doce sonho
De falar das folhas que caem no chão

Esse vento passa um sonho
Vento venta sem parar
KÉSTOR  e  DIQUE (trabalhando, cantam)

Tá começando o dia vamos juntos trabalhar
Construir uma represa para podermos nadar
Do fundo dessas águas bem depressa ir buscar
Peixes bem fresquinhos para a fome saciar...

Roendo um tronco grande a outro vai se juntar
Construo um dique forte para a água ali ficar
E nesse grande lago os castores vão pular
Então, mais uma árvore, iremos derrubar.

Roc, roc, roc sou Késtor roedor
Troc, troc, troc sou o Dique a seu dispor
Na terra, na floresta, tudo tem o seu valor
Irmãos trabalham juntos na família do Castor

KÉSTOR
Bom dia, Dique... Dormiu bem?
DIQUE
(feliz) Bom dia, Késtor... (triste) não!
KÉSTOR
Não o que?
DIQUE
Não dormi nada, nada, nada bem...
KÉSTOR
Nada bem?
DIQUE
Pois é, meu bem, não dormi bem.
KÉSTOR
Posso saber por que não?
DIQUE
Por que não o que?
KÉSTOR
Por que você não dormiu bem?
DIQUE
Ah, é verdade, eu não dormi nada bem...
KÉSTOR
Tá certo, e você não dormiu bem por quê?
DIQUE
Porque temos muito trabalho antes de terminar a represa...
KÉSTOR
Mas essa não é a primeira represa que construímos. Sempre terminamos no prazo.


DIQUE
Terminamos no prazo, sim. É verdade. Mas não é isso que está me tirando o sono, não é mesmo.
KÉSTOR
E o que é que está te tirando o sono?
DIQUE
Quer saber por que não dormi bem ou o que está me tirando o sono?
KÉSTOR
As duas coisas não são a mesma coisa?
DIQUE
É, de certa forma até são, sim.
KÉSTOR
Afinal, Dique, vai ou não vai me dizer o motivo?
DIQUE
Não dormi bem porque meu dentinho de leite está caindo...
KÉSTOR
Tá mole?
DIQUE
Molinho, ó...
KÉSTOR
Você está mesmo na idade de trocar os dentes, Dique.
DIQUE
Estou, né, Késtor?
KÉSTOR
Então você não dormiu direito porque seu dente está caindo?
DIQUE
Está... molinho...
KÉSTOR
E o que tirou seu sono?
DIQUE
O que me tirou o sono foi o que não me deixou dormir...
KÉSTOR
O dente?!
DIQUE
Não, o dente não me deixou dormir bem... O que me tirou o sono foi o que fiquei pensando quando o dente não me deixava dormir...
KÉSTOR (desiste)
Está bem, Dique... Vamos roer alguns troncos...
DIQUE
Você manda, Késtor...
KÉSTOR (roendo)
Mais algumas árvores e acabaremos aqui...

DIQUE
Sim, acabaremos. E depois começaremos outra represa em diferente lugar...
KÉSTOR
Esse é o nosso trabalho. Construir represas nos rios.
DIQUE
Késtor?
KÉSTOR
Diga, Dique!
DIQUE
Não sei se gosto muito de fazer isso o tempo todo... Derrubar árvores, roer os troncos e represar os rios.
KÉSTOR
Psiu, não fale alto, ela (arrepio) pode estar por perto. Mas é isso que os castores fazem. Sempre fizeram desde que o mundo é mundo.
DIQUE
Talvez com o meu dente mole eu não consiga dormir, mas não conseguindo dormir por causa do dente eu fico acordado... pensando em quantos troncos terei que roer até ficar  bem velhinho.
KÉSTOR
Não posso imaginar nossa vida sem roer... é claro que sempre fizemos isso por prazer, mas de uns tempos pra cá somos escravos... (baixinho) dela. Por falar em roer, olha o tamanho dessa árvore. Tiraremos bons troncos daqui.
FOLHILDA
Vocês terão coragem de me derrubar, rapazes? Estou nesse pedaço de chão há 98 anos, ainda tenho muito que crescer. Sem contar que meus galhos estão repletos de ninhos, todos com filhotinhos que ainda não sabem voar... Sem contar o quanto de ar eu posso colocar no mundo, oxigênio puro. As comunidades precisam de ar puro, não acham? Sem contar que eu...
KÉSTOR
Sem contar, sem contar... Se for sem contar não conte!
DIQUE
Não precisa ser tão malcriado, Késtor.
FOLHILDA
Isso mesmo, Castor, não precisa ser indelicado... Afinal eu sou uma senhora da floresta. Sem contar...
DONA UJA
Mas que tanto de falação é esse? Será que uma empresária não pode se concentrar em suas atividades direito? Por que é que vocês dois em vez de trabalhar estão batendo papo?
KÉSTOR
Essa árvore está reclamando...
DIQUE
É, mas é uma boa reclamação.
DONA UJA
Ela não pode impedir o nosso trabalho em prol do desenvolvimento.
FOLHILDA
Mesmo que pra isso tenha que derrubar toda a floresta? Se a senhora tem o seu trabalho nós temos o nosso.
DONA UJA
Não me interessa o seu chororô... Não tenho tempo pra discutir direitos trabalhistas. Vocês dois, façam o que devem fazer: derrubem a árvore.
DIQUE
Mas Dona Uja...
DONA UJA
Sem mas, Dique. Você é pago pra trabalhar... Mais uma reclamação e coloco você e seu irmão no olho da rua.
KÉSTOR
Ei, não tenho nada a ver com isso.
FOLHILDA
Não castigue os meninos por minha causa...
DONA UJA
Não tô nem aí pra você, árvore sem graça. Eles são meus empregados, ou fazem o que mando ou boto pra correr. Essa represa tem que ser entregue até amanhã bem cedo, entenderam? Se precisar trabalhar a noite inteira, trabalhem. (canta)

Trabalhem seus castores preguiçosos
Eu tenho que encher meu bolso de dinheiro
Estão com pressa os meus sócios
Vendemos as represas de janeiro a janeiro

Não liguem pra uma árvore boba
Ela não vai fazer nenhuma falta
Defendo minha causa como uma loba
Na reunião coloco o assunto em pauta

Trabalhem e me entreguem logo o trabalho
Senão vão conhecer a minha zanga
Não quero tão somente um quebra galho
Vou lá comer meu jambo com pitanga (saindo)
Venha comigo, Késtor... Vou lhe entregar uns documentos... (sai)


KÉSTOR
Fique aqui, Dique, eu volto logo. E não faça besteiras...
DIQUE
Até parece que sou um besteirento...
KÉSTOR
Te conheço, irmão, te conheço muito bem. Nada de idéias mirabolantes... (sai)
FOLHILDA
Dique, você parece ter um coração enorme.
DIQUE
Tenho nada, sou tão pequenininho ainda...
FOLHILDA
Precisamos nos unir pra acabar com esse desmatamento incontrolável.
DIQUE
Não tem jeito, dona Folhilda... Se não derrubamos árvores não temos represas, sem represas não temos trabalho e muito menos energia elétrica, menos água abastecendo as casas e indústrias pros homens que moram nas cidades.
FOLHILDA
Mas eu não sou contra o bem estar de todo mundo, não sou não... desde que nós aqui na mata também possamos viver bem e continuar dando com a nossa vida o bem estar pros outros.
DIQUE
Como assim?
FOLHILDA
É como desvestir um santo pra vestir outro.
DIQUE
Como assim?
FOLHILDA
Você derruba árvores, não é?
DIQUE
Derrubo...
FOLHILDA
Então, você faz um bem, mas faz um bem sem controle.
DIQUE
Como assim?
FOLHILDA
São necessárias muitas de nós pra construir uma barragem... e quanto mais árvores são derrubadas, menos oxigênio no mundo.
DIQUE
Como assim?

FOLHILDA
Como assim??? Ah! Só posso lhe dizer que isso tudo não pode acabar bem, não pode não.

ENTRA ESCARAVELHO APRESSADO, SEGURANDO UMA PETIÇÃO

ESCARAVELHO
Olá, olá, olá. Posso saber quem é o responsável pela empresa que está acabando com a vegetação? Ção ção?
FOLHILDA E DIQUE
É a Dona Uja...
ESCARAVELHO
Onde está essa senhora? Nhora Nhora?
DIQUE
Só um minutinho que eu vou chamar.
ESCARAVELHO
Obrigado, gado gado!
FOLHILDA
O que está acontecendo, Escaravelho?
ESCARAVELHO
Desculpe, mas meu assunto é com a proprietária... ária, ária!
FOLHILDA
Tudo bem. Mas já posso imaginar do que se trata.
ESCARAVELHO (CANTA)
Sou um besouro ouro com a cabeça no lugar gar gar
Essa loucura cura tem logo que acabar ar ar

ENTRA DONA UJA COM UMA MACHADINHA NAS MÃOS
DONA UJA
Por que me procura, velho escaravelho?
ESCARAVELHO (canta)
Sou velho, mas eu sei o que está fora de lugar gar gar
Eu vim para dizer que isso tem que acabar ar ar...
                        (falando) Trago essa petição ição, ição, para informar que como não há mais mata ata ata ao redor das represas esas esas a água está apodrecendo e causando ando ando muitas doenças enças enças nas pessoas que utilizam...
DONA UJA
Pode parar por aí... eu faço as barragens, eles é que cuidem da qualidade da água, oras. Pouco se me dá se as águas estão podres, poluídas ou sujas...

FOLHILDA
Estava mesmo tentando avisar sobre o perigo disso tudo, senhor Escaravelho. Mas a ambição dessa Coruja não acaba nunca. Ela não se importa nenhum pouco com os outros, não mesmo.
ESCARAVELHO
Dona Uja, uja... a senhora não pode ser tão egoísta ísta ísta desse jeito. Precisamos do seu trabalho, sim... só que tem que arranjar um jeito eito eito de fazer isso com consciência encia encia.
DONA UJA
Vou lhe mostrar a minha consciência, seu Velho escaravelho... (começa a machadar a árvore) Caia planta inútil, caia de uma vez.

ELA TENTA DERRUBAR A ÁRVORE, ESCARAVELHO TENTA IMPEDIR. FOLHILDA PEDE POR SOCORRO, ETC. MAS DONA UJA É MAIS FORTE E DERRUBA A ÁRVORE.

DONA UJA
Pronto, agora é cortar em troncos e terminar mais uma represa.
MOURICINHO (QUE ESTÁ DEBAIXO DA ARVORE CAIDA)
Ui... alguém tira essa árvore de cima de mim?
ESCARAVELHO (AJUDANDO O OURIÇO)
Olhe bem à sua volta, dona Uja... Não há mais nenhuma árvore vore vore... a mata é um deserto erto erto.
DONA UJA
Mas eu cumpri com minha obrigação de empresária.
MOURICINHO (CHORANDO)
Olha só o que fizeram da minha casinha... era o único lugar que eu tinha pra morar...
ESCARAVELHO
Que maldade ade ade, Coruja uja... Você acabou com os abrigos todos odos odos dos animais ais ais da floresta. Se eu soubesse o que estava acontecendo tinha vindo indo indo antes...
MOURICINHO
É a quinta casa que me tiram. Será que um pequeno ouriço não tem direito a viver em paz?
DONA UJA
Cada um tem o destino que merece...
ESCARAVELHO
Não fique assim, Mouricinho cinho cinho... daremos um jeito
DONA UJA
Daremos um jeito, daremos um jeito... o jeito que vocês tem que dar é sair da minha frente antes que eu perca a paciência. Onde estão aqueles castores preguiçosos pra tirar essa montanha de galhos daqui... (sai chamando) Dique... Késtor...
MOURICINHO
E agora, Escaravelho?
ESCARAVELHO
Sabe que eu não sei ei ei ?
(OUVE-SE LATIDOS)
MOURICINHO
Perdi meus pais e meus irmãos por causa da ganância dessa coruja... eles tentaram salvar uma parte da mata, mas ela botou fogo em tudo antes que eles pudessem se salvar.
ESCARAVELHO
Está tudo perdido ido ido... o que posso fazer er er? Daqui a pouco não restará uma plantinha se quer pra dar vida ao mundo undo undo.
(LATIDOS)
MOURICINHO (CHORA E CANTA)
Ihhhh qui qui qui
Que vou fazer agora?
Não acho mais comida, nem tenho mais onde morar
Ihhhh qui qui qui
Tem que ter uma maneira de recomeçar
Brigar?
ESCARAVELHO
Brigar não dá
MOURICINHO
Falar?
ESCARAVELHO
Falar também não dá
MOURICINHO
Então o que é que dá?
ESCARAVELHO (falando)
É se conformar, Mouricinho... e tentar continuar uar uar
AUAURÉLIA
Desculpe a intromissão, mas não pude deixar de ouvir essa ladainha de vocês. Cruzes, será que não conseguem ser mais otimistas?
MOURICINHO
Uau, que coisa mais linda.
AUAURÉLIA
Eu sei que é difícil tirar os olhos da minha beleza. Mas vou logo avisando, não gosto de mau humor... o mau humor deixa meus pelinhos eriçados.


ESCARAVELHO
O que uma cachorrinha rinha rinha da cidade está fazendo no meio da mata ta ta?
AUAURÉLIA
Ai, moço nem te conto... A cidade está um caos... pouca água, poluição horrorosa, lixo pra todo lado... quem disse que minha roupa fica limpa com tanta sujeira? Então eu pensei aqui comigo mesma.. vai dar uma volta, Auaurélia, o meu nome é esse: Auaurélia... vai espairecer um pouco as idéias. E vim; entrei na floresta achando que ia encontrar um lugar maravilhoso e encontro isso: tudo destruído.
MOURICINHO
Como você é linda!!!
AUAURÉLIA
Obrigada, garoto, mas ser bela dá trabalho, sabia? Eu passo horas no pet shop cuidando da minha beleza...
ESCARAVELHO
E pelo visto dá resultado ado ado porque o Mouricinho aqui apaixonou ou ou.
MOURICINHO
Que é isso, Escaravelho? Apaixonar não é bem a palavra, né? É que eu nunca tinha visto uma garota tão... tão...
AUAURÉLIA
Linda, bonita, gracinha?!
ESCARAVELHO
É, mas isso não é hora pra namoro oro oro... A coisa tá pegando fogo por aqui qui qui... e pelo visto está pegando fogo também na cidade, né, Auaurélia lia lia?
AUAURÉLIA
Pois é, vovô. Tá brabo, bicho.
DONA UJA (ENTRA SE ABANANDO)
Ai, socorro, alguém me ajude. Não estou conseguindo respirar.

MOURICINHO
Ah, se eu te pego sua bruxa...
AUAURÉLIA
Calma, Mouricinho, calma... não vê que ela está doente?
MOURICINHO
Ela é muita chata e esquisita, é isso que ela é.
AUAURÉLIA
A culpa de tudo o que tá rolando é dela, é?
DONA UJA
Por favor, chamem um veterinário pra me ajudar, não consigo respirar depois que tomei a água da represa...
ESCARAVELHO
Viu, só? As pessoas da cidade também estão passando ando mal como você...
MOURICINHO
E tudo porque você é uma coruja sem freios...
AUAURÉLIA
É por isso que minha patroa trabalha com a sustentabilidade...
TODOS
Sustenta o que?
AUAURÉLIA
Sustentabilidade, gente... Quer dizer que você tem que arranjar uma maneira de substituir ou reutilizar coisas naturais ou não.
MOURICINHO
O que isso tem a ver com a doença dessa coruja?
AUAURÉLIA
A minha patroa diz que quando você arranca uma árvore, por exemplo, é preciso plantar mais uma ou duas ou até mais no lugar, porque assim estaremos mantendo o equilíbrio natural das coisas...
ESCARAVELHO
Puxa xá xá! Desse modo nunca acabariam as florestas, não é mesmo esmo esmo?
MOURICINHO
E eu teria sempre uma nova casa na mata. Aí eu me casaria, teria minha família e...
DONA UJA
Como resolvo esse mal estar?
AUAURÉLIA
A senhora arrancou tudo por aqui, perto das águas e a água sem árvores não respira, fica doente e quem bebe dela também fica. Tem sorte de ainda estar viva.
DONA UJA
Estou arrependida...
MOURICINHO
Como se isso fosse resolver.
ESCARAVELHO
Mas já é um bom começo eço eço.
MOURICINHO
Ou o fim dela, né?
AUAURÉLIA
Queridinhos, vamos dar uma chance a dona Uja... Como dona da empresa de destruição, agora ela tem que dar uma solução pro mal que provocou a muita gente...

DONA UJA
O que posso eu, tão debilitada? Não agüento nem andar... o que foi que eu fiz... destrui toda a floresta, sujei a água, fiz tudo errado.
AUAURÉLIA
Todos vão ajudar a reconstruir... e limparemos a sujeira e salvaremos a vida das águas enquanto há tempo. (CANTA)
Se você pode ganhar uma nova vida
Pra que tem que pensar duas vezes?
Tirando uma árvore plante outra no lugar
Usando uma garrafa plástica procure transformar
num vaso de flor, num abajur pra iluminar
tudo no mundo tem que estar em seu lugar.
DONA UJA
Eu fiz tudo errado, tenho agora que ajeitar
ESCARAVELHO
Eu sou um pouco velho mas posso ajudar ar ar
MOURICINHO
Eu sou bem jovem braço forte a trabalhar
TODOS
AINDA TEMOS COMO ACUDIR A NATUREZA
REUTILIZANDO O LIXO, DEIXE DE FRAQUEZA
BATALHE. PRA ESSA LUTA NÃO HÁ NENHUMA IDADE
O MUNDO SENDO SALVO COM A SUSTENTA
SUSTENTA TENTA TENTA BILIDADE.

DONA UJA
Bem, amigos, peço desculpa por tanto mal que causei ao mundo. Mas nunca é tarde pra tomar uma decisão e melhorar o ar, a água, o meio ambiente... nunca é tarde. Só que não deixe pra depois, faça agora sua parte porque eu vou fazer a minha.
DONA UJA, ESCARAVELHO E MOURICINHO CANTAM DE NOVO A CANÇÃO. AUAURÉLIA SUMIU. MAS FOLHILDA BROTA DO CHÃO, NOVAMENTE, E SORRI.

FOLHILDA
Viva a vida sustentável. Se vocês não sabem bem o que é isso, procurem nos livros, conversem entre vocês e arrumem uma maneira de colocar em prática a sustentabilidade. Assim sempre haverá uma árvore como eu torcendo por vocês.

CANTAM

FIM

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