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quarta-feira, 25 de abril de 2012

LOGEMENT

Logement

Roteiro para curta metragem de Ademir Esteves.

Escrito em 24 de março de 2012, num banco à sombra de uma árvore, na praça do Morro de São Bento, Ribeirão Preto SP.

Personagens:

Doca - quase 50 anos; ávida por ações o tempo todo, cozinha, lê, limpa, senta, levanta.

Marina - a mais nova dos irmãos, por volta de 35 anos; fumante inveterada sem necessariamente levar o cigarro à boca todas às vezes que acende um. Tem um ar entre misterioso e sorrisos repentinos.

Noêmia - por volta de 52 anos; ex professora, impecavelmente vestida e maquiada. Deve possuir algum tique nervoso de quem sempre precisou chamar a atenção de alunos barulhentos.

Margarida - homem de 45 anos; vestido como mulher e tratado como mulher, pelas outras. Parece ter um bom humor, meio ferino e tem a postura de quem está livre para agir. Tem uma coleção de perucas de tamanhos e cores diferentes.

Ela - elemento apenas citado, mas sempre muito presente na atmosfera da casa.

locações:

1 - Cozinha sombria com apetrechos de cozinha e mesa sempre posta  para refeições. Janela cerrada por cortina pesada e uma porta de saída, também fechada. Uma passagem sem porta para o interior da casa, por onde entram as personagens.

2 - Pedaço de rua frente a casa das irmãs alongando para a fachada nada suntuosa, com muros altos, portão de ferro chapado, pequena escada com acesso à varanda e a porta de entrada.

3 - Sala da casa, não muito espaçosa. Os móveis estarão afastados para dar lugar ao bailado solicitado no roteiro na Cena 3.

CENA 1

MÚSICA PARA TODA A PRIMEIRA CENA.

AÇÃO: I

ÂNGULO ALTO, desfocando para objetos na cozinha. doca, de penhoir, pondo a mesa do café da manhã. em dado momento doca abre um pequeno espaço na cortina e tenta ver o que há lá fora. imediatamente cerra a cortina. inspira. pragueja algo em tom inaudível. suspira e retorna aos afazeres.

AÇÃO ii - CONTINUIDADE

ENTRA MARINA, AINDA DE CAMISOLA, SENTA-SE À MESA E ACENDE UM CIGARRO. SERVE-SE DE CAFÉ PURO, ADICIONA AÇÚCAR MASCAVO E  DURANTE UM TEMPO MEXE O CAFÉ COM A COLHER, E O CIGARRO ESQUECIDO ENTRE OS DEDOS. LEVANTA OS OLHOS PARA DOCA E ESBOÇA UM SORRISO.

ação  III - continuidade

CORTA PARA NOÊMIA SURGINDO VESTIDA SOBRIAMENTE E MAQUIADA COM UM CERTO EXAGERO. SENTA-SE APÓS APANHAR UM GUARDANAPO SOBRE UM APARADOR. SERVE-SE DE CAFÉ, LEITE, ETC.

AÇÃO  IV - CONTINUIDADE

DESFOCA PARA A ENTRADA DE MARGARIDA , VESTIDA COM ROUPAS ESCURAS E ESTAMPADAS. PERUCA VERMELHA, PRESA NUM RABO DESAJUSTADO E O ROSTO ESTÁ LIMPO, DEIXANDO O HOMEM CLARAMENTE exposto.ANTES DE SENTAR-SE A MÚSICA ACABA.

FIM DA MÚSICA.

CENA 2


MARGARIDA

Bom dia para quem seja de bom dia!    (senta-se)

DOCA  (SENTANDO-SE PARA O CAFÉ, ABRE UM PASQUIM AMARELECIDO)

CLOSE NA MANCHETE DO PASQUIM :

ELDORADO DO CARAJÁS –  MEMORIAL DE UM MASSACRE

17 de abril de 1996

DOCA

(LENDO) “Se nos calarmos, as pedras falarão”

MARINA

Se levarmos ao menos um café, será que Ela toma?

NOÊMIA

Fez um som horrível a noite toda. Pretendo transferir-me de quarto hoje mesmo.

DOCA

"Todos os policiais militares que participaram do massacre foram julgados e absolvidos. O Tribunal do Júri de Belém decidiu condenar apenas dois comandantes: o coronel Mário Colares Pantoja e o capitão Raimundo Lameira.O Massacre de Eldorado do Carajás e a impunidade dos mandantes e executor..." (interrompe-se) E quem dormirá ao lado dela?

MARGARIDA (MOLHA O PÃO NO CAFÉ)

Volto sempre tarde da noite da  rua. (OLHARES) Vocês sabem! Passo pelo quarto, dou uma olhada, vejo que ainda está viva e vou para o meu canto. (OLHARES) É o que posso fazer.

MARINA (acende outro cigarro)

Quem sabe um leite Ela consiga engolir? Um leite morno, sem açúcar...

DOCA (concentrada no jornal)

Irrelevantes essas inciativas isoladas dos nossos políticos...Há coisas que não chegam até nós.

MARINA

Tudo nos afeta, Doca. (ALTERA-SE) E você sabe muito bem quanto tempo faz que...

MARGARIDA (EM CIMA)

A falta de geléia nesta mesa é um exemplo de desatenção. (LENTAMENTE) E, determinados assuntos merecem uma cautela singular.

(SILÊNCIO PERTURBADOR)


NOÊMIA

Era um som gutural... não se pode chamar de ronco nem mesmo de ressonar. Agonia. Era agonia . A pergunta é: estamos preparadas para a morte dela?

DOCA (JORNAL)

Vão estrear Hamlet... eu gostaria de pode assistir. (REPETINAMENTE , TRÊMULA) É lógico que eu sei que não iremos; eu sei, eu sei...

MARGARIDA

Marina: sua camisola está cheia de furos de cigarro. Hora dessas incendeia-se durante o sono. Mania de fumar durante a noite. Mania!

MARINA

Seria mesmo terrível, por exemplo, que suas perucas derretessem  com o meu fogo, não é Margarida?  Entretanto, esquecendo as perucas e... bem, o que não pode ser destruido não deve estar bem vivo.

DOCA

Terminem o café. Seria bastante vantojoso se as ironias ficassem fora da minha cozinha. (TEMPO. PARA MARGARIDA) Você trouxe o disco com a música que eu pedi?

MARGARIDA (SORRINDO)

Mais tarde abriremos espaço na sala, coloco o disco e... podemos até dançar se quiserem.


(TODAS ASSENTEM COM ANIMAÇÃO E SORRISOS)


NOÊMIA

Tenho um milão de provas para serem corrigidas.

MARINA

Faremos silêncio!

NOÊMIA

Concentro-me melhor com os ruídos. Seus sapatos vulgares  marcando o assoalho de um lado para o outro da casa... enfim!

MARGARIDA

Ah! Essas provas eternas, Noêmia. Há séculos o magistério não lhe pertence, minha pobre!

NOÊMIA

Tudo indica que Ela não passa de hoje, Doca.

DOCA

Levamos o leite?

MARINA

Você poderia fazer isso, Doca? Com você ela é mais receptiva.

DOCA

Não me reconhece.

MARGARIDA

Não reconhece nenhuma de nós, está claro. Nem a si mesma.

MARINA

Não vamos alimentá-la. regurgita tudo o que consome. Deixe-a morrer em paz.

SILÊNCIO. CLOSE EM CADA ROSTO. TODAS DESVIAM OS OLHOS PARA O CENTRO DA MESA.

ÁUDIO MUSICAL INICIA EM FADE IN PARA PRÓXIMA CENA.

TODAS (NÃO AO MESMO TEMPO)

Que morra!


DESFOCAR CENA 3.

CENA 3

DANÇAM, SINCRONIZADAS COMO NUM MINUETO.

1 - A CÂMERA FOCA O ROSTO DE MARINA, FUSÃO PARA O PENSAMENTO DELA, IMAGEM:

"MARINA ESTÁ COMENDO UM GRANDE PEDAÇO DE CARNE, ÁVIDA, QUASE CRUA, AINDA INCRUSTADA NUM OSSO"

2 -FUSÃO PARA ROSTO DE MARGARIDA    E PENSAMENTO, IMAGEM:

"MARGARIDA TENTANDO ARRANCAR PEDAÇOS DE CARNE, IDÊNTICAS AOS DE MARINA, DE MÃOS DECIDIDAS A NÃO SOLTAREM A COMIDA."

3 - FUSÃO PARA OS ROSTOS DE DOCA E NOÊMIA, PENSAMENTO, IMAGEM:

" COMEM PEDAÇOS DE CARNE COMO AS ANTERIORES E SORRIEM ALUCINADAS ."

4 - FUSÃO PARA UM QUADRO NA PAREDE. A PINTURA RETRATA CANIBAIS ANTEPASSADOS. AS PESSOAS RETRATADAS LEMBRAM AS MULHERES DA CASA.

5 - ABRINDO PARA A DANÇA. A MÚSICA CESSA. TODAS PARAM E OLHAM PARA UM MESMO PONTO: O QUADRO. FADE OUT PARA PRETO.

CENA 4

ABRE PARA MARGARIDA À NOITE NA RUA VOLTANDO PARA A CASA. ABRE O PORTÃO, FECHA. CAMINHA ATÉ A VARANDA. OLHA PARA TRÁS UM INSTANTE. ABRE A PORTA, ENTRA. FOCO PARADO NA PORTA SE FECHANDO. CORTA PARA CENA 5.

CENA 5

DOCA, MARINA E NOÊMIA REUNIDAS À MESA, JANTANDO. OLHAM PARA MARGARIDA À PORTA DE ENTRADA DA COZINHA, ARRUMANDO A PERUCA. FAZ UM GESTO DE "OLÁ" E SAI PARA DENTRO DA CASA.

DOCA

Ela voltou cedo, dessa vez.

MARINA

queria poder sair, também.

NOÊMIA (rindo com escárnio)

somos as mulheres; e as mulheresmo que somos não vão à rua.

DOCA

Não vão!

MARINA

Eu gostaria de tentar. O passado  foi a tanto tempo.

NOÊMIA

O risco é todo seu. (baixo) Uma de nós tentou e veja onde está: agonizando sobre a cama suja.

MARINA (ACENDE um CIGARRO)

Ela saiu no meio do dia... Tudo estava claro demais...procurou por isso. Havia até protesto nas ruas para derubar a presidência. deixou-se ser vista. esqueceram a política e voltaram-se contra Ela.

DOCA (CONCENTRADA NO JORNAL)

Não há uma noticia cultural que valha a pena...

MARINA

Acabe de uma vez com esse pasquim com notícias velhas.

NOÊMIA

Superadas!

DOCA (AGARRA-SE AO JORNAL)

Não há esperanças sem informação!

MARINA

Essa noite eu vou sair... De madrugada... Só até ao portão...

MARGARIDA (aparece à porta, pálida)

O que faremos com o corpo?

SILÊNCIO

A CÂMERA ESMAECE O QUADRO VIVO QUE SE FORMOU E VAI ABRINDO PARA A PRÓXIMA CENA

CENA 6

DOCA COZINHANDO NUM GRANDE CALDEIRÃO. ALGO QUE SE APREÇA UMA FARTA FEIJOADA. OSSOS E PEDAÇOS DE CARNE ESTÃO AINDA SOBRE A BANCADA DA PIA.

NOÊMIA (ENTRA, COM UMA ROSA NAS MÃOS E A DEPOSITA LENTAMENTE SOBRE AS CARNES NA PIA)

O cheiro está ótimo, Doca.

DOCA

São as ervas. Perfumam bem.

MARGARIDA (entra, peruca negra. traz sua coleção de perucas e as penteia sobre a mesa)

DOCA

Vai espalhar cabelo sintético por toda a cozinha, Margarida!

MARGARIDA

Você colocou coentro nisso? Sabe que não como nada que contenha coentro.

DOCA

Era necessário. Coentro dá um toque humano no preparo do prato.

MARGARIDA

Humano ou não, passarei fome hoje.

NOÊMIA

Meu Deus; as provas! (SAI)

DOCA (Chamando)

Noêmia?! (À MARGARIDA) Nem imagina o que...

MARGARIDA (EM CIMA)

Noêmia não encontrará as provas, não é isso? Eu disse que Marina acabaria incendiando alguma coisa com seus malditos cigarros.

DOCA (DEBRUÇA-SE SOBRE O ESPALDAR DE UMA CADEIRA, SEGURANDO UMA COLHER DE PAU ESCORRENDO LÍQUIDO GROSSO)

Quando você vai à rua... como é?

MARGARIDA

Escuro! nem mesmo vejo o rosto dos que me tocam. Apenas tocam... Um deles poderia ser alguém da família. Mas não vejo nada. Apenas deixo acontecer. Uma vez, um deles, me fez uma pergunta: Vous, sous la perruque, c'est le logement des femmes qui meurent de faim?* Acho que foi assim que ele falou... Eu sorri e, para não ter que dar uma resposta direta, coloquei minha boca na dele. Deixo acontecer. E quando parece ser o momento de voltar para a casa, eu volto.

(*Você, debaixo dessa peruca, pertence a habitação das mulheres famintas?)


DOCA

É difícil para você... não é?

MARGARIDA

Se assim não fosse, estariamos sem pão. Por isso me revolto quando coloca coentro na comida. Eu detesto coentro!

DOCA

Você plantou coentro no quintal.

MARGARIDA

Enganada. Achei que fosse salsa.

NOÊMIA (ENTRA.  Olhar perdido)

As provas! Como serão os meus dias sem as minhas provas?

ÁUDIO - SOM DE PORTA BATENDO.

AS TRÊS DESVIAM OS OLHARES PARA A PORTA DA COZINHA. MARINA APARECE, APOIANDO-SE NA PAREDE, COMPLETAMENTE ENSANGUENTADA.

MARGARIDA, dOCA E nOÊMIA

Marina!

MARINA (sorrindo)

Valeu a pena. Vi crianças no parque. Homens nos bares. Mulheres nas janelas e nos mercados. E um casal de jovens no beijo mais lindo que pude ver na minha vida toda. (ARQUEJA) Me levem para a cam... Noêmia cuidará de mim.

CORTE IMEDIATO PARA A CENA 7.

CENA 7

DOCA PREPARANDO O CAFÉ DA MANHÃ. NOÊMIA ENTRA VESTIDA EM CAMISOLA, SENTA-SE, ACENDE UM CIGARRO. MARGARIDA  VEM EM SEGUIDA, ALINHADAMENTE VESTIDA, A PERUCA É CASTANHA COM UM COQUE PERFEITO.

DOCA

Como ela está?

MARGARIDA

Cantarolou a noite toda. E pediu que abrisse as janelas. Estava frio e eu lhe dei uma coberta. Usou a coberta num manto sobre os ombros e cantou Ave Maria de Gounod. Inteirinha. Diversas vezes. Toquei um pouco de piano, invisível, como se as teclas estivessem sobre a  mesa antiga de liba** da vó Abaé***... E ela sorriu.

 **liba (tupi) = variação de ubá - madeira - árvore.

***ABAÉ (iNDIGINA)= UMA OUTRA PESSOA.

NOÊMIA

Então não foi um sonho?

DOCA

não ouvi absolutamente nada. dormi como uma pedra.

NOÊMIA

O que traz o jornal hoje, querida Doca?

DOCA

O de sempre... (depois de um longo tempo, as lágrimas correm por seu rosto) O de sempre!

IN OFF: VOZ DE MARINA CANTANDO AVE MARIA DE GOUNOD. O CANTO DELA MIXA-SE COM INSTRUMENTAL TEMA DO FILME. A CÂMERA AFASTA-SE DAS LÁGRIMAS DE DOCA PARA PLANO ABERTO. TOMAM CAFÉ. SOBEM OS  CARACTERES FINAIS. NOÊMIA ACENDE OUTRO CIGARRO. MARGARIDA DEDILHA A MESA COMO SE TOCASSE PIANO, SORRI; ESTICA OS BRAÇOS E LIMPA O ROSTO DE DOCA. DOCA SORRI TRISTEMENTE ENQUANTO PASSA MANTEIGA NO PÃO.

FIM









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